O Homem Que Só Gostava de Números

Se alguém barrou manteiga no pão pela primeira vez aos 21 anos e aprendeu a apertar os sapatos aos 18, o que nos ocorreria (depois de nos certificarmos da inexistência de um qualquer problema motor ou cognitivo) sobre esse alguém?

Paul Erdös (lê-de “Erdish”), matemático húngaro cuja vida coincidiu com a quase totalidade do século XX, foi esse alguém, mas foi muito mais. Foi um dos mais prolíficos matemáticos do século, sobretudo em Teoria de Números, uma área da Matemática sobre a qual alguém disse (e não me recordo se o li no livro que serve de base a este artigo, se noutro lado) que é uma área onde qualquer criança consegue entender um problema proposto embora nem os melhores matemáticos do mundo o consiguam resolver. A Teoria de Números estuda a classe dos números inteiros bem como os problemas que eles formam. A título de exemplo, afirmar que qualquer número par se pode escrever como a soma de dois números primos é uma conjectura que qualquer pessoa com conhecimento de Matemática ao nível do secundário consegue entender mas, à data em que li O Homem Que Só Gostava de Números, a biogafria de Paul Erdös escrita por Paul Hoffman, estava ainda por resolver: é (a famosa) Conjectura de Goldbach.

Erdös chamava Épsilons às crianças (o épsilon é uma letra do alfabeto grego utilizada nas proposições e demonstrações matemáticas para representar valores muito pequenos).

Erdös era um personagem singular. Educado longe do pai e tendo perdido as irmãs pouco depois de nascer, cresceu muito protegido pela mãe, cedo descobrindo a apetência para os números e para o cálculo. A vida de saltimbanco que viria a fazer parte da sua existência levou-o a transportar consigo duas velhas malas de roupa enquanto viajava por todo o mundo, alojando-se em casa de matemáticos com quem colaborava na escrita de artigos científicos.

Os matemáticos, como os filósofos, possuem aquela centelha paradoxal através da qual, alheando-se da realidade onde o comum dos mortais se move, conseguem esgravatar mais fundo na descoberta da linguagem última que explica a existência. Erdös era assim e a escrita apaixonada e apaixonante de Hoffman torna o relato da sua vida um deleite para qualquer leitor que se interesse pela História da Ciência. Li O Homem Que Só Gostava de Números com vinte e dois anos, quando o curso de Matemática na FCUL me corria bem e os livros de divulgação científica me abriam a curiosidade para o maravilhoso mundo da descodificação da realidade. O livro é uma fresca e belíssima biografia com uma dose razoável de Matemática pelo meio: um equilíbrio bem conseguido que alarga o espectro de possíveis leitores bem como o interesse pela vida de Erdös. O prémio Rhône-Poulenc em 1999 para o melhor livro de Ciência comprova-o

Erdös dormitava durante as conferências onde marcava presença pelo mundo fora e tinha a preocupação, não apenas em resolver os problemas, mas também em encontrar a forma mais elegante de o fazer: Matemática e Arte.

Para ele, Deus era o Supremo Fascista que “nos criou para se divertir com o nosso sofrimento. Quanto mais cedo morrermos, mais cedo lhe estragamos os planos.” E que possuía “O Livro”, um almanaque hipotético que continha “as melhores demonstrações de todos os teoremas matemáticos, demonstrações que são elegantes e perfeitas”. Quando Erdös queria elogiar o trabalho de um colega dizia que “veio directamente do Livro”.

A beleza da divulgação científica consiste em acender a chama da paixão pelo método científico a um leigo, mostrar-lhe como a realidade consegue ser tão simples e complexa ao mesmo tempo, como, passo a passo, vamos desvendando a linguagem que a descodifica, e tudo isto de uma forma perceptível, bela e apaixonante. Paul Hoffman conseguiu-o na perfeição com este livro.

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