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Quando estamos pandémicos, todas as canções são sobre vírus

Não há como fugir ao tema. Está tão entranhado na nossa pele que se entranha em tudo o resto. Incluindo no que ouvimos. É como uma obsessão amorosa, nada saudável (pese o pleonasmo). Se o Zé Felipe diz “agora não me toca”, nós respondemos que já sabemos e ainda lhe pedimos para ir cantar a dois metros de distância. Ou, então, que fique só ali afastado, a refletir na vida, que também não fica nada mal. Depois, chega a Adelaide Ferreira, muito triste, tão triste que até “dava tudo” para nos ter ao pé dela outra vez. Mas agora não podemos, Adelaide. Ouve o conselho do Zé Felipe.

Por esta altura, deves estar a perguntar-te que raio de músicas ando a ouvir. E a pensar que o melhor mesmo era pedir ao Spotify que me mostre um repertório novo. Só que o problema é que o caso está tão grave que nem escolho ouvir estas músicas. Elas vão aparecendo na mente, como um vício pior do que a nicotina. E olha que eu nunca fumei, já para evitar meter-me em trabalhos.

Contudo, acredito que ainda há esperança. E não me refiro à tendência para cantarmos o “I will survive”, a uma só voz, com ou sem tachos a acompanharem o ritmo à janela. Não, falo de o facto de, nos últimos dias, estes hits populares terem sido sabiamente substituídos, em repeat na minha cabeça, por uns versos dos Linda Martini: “ainda é cedo ou muito tarde para me vires buscar”. (Boa transição para hipster, hein?)

Porém, claro, não há bela sem senão. O gosto musical até pode estar mais afinado. Todavia, só vem revelar que este período pós-Páscoa está a trazer alguns dissabores à rotina: não ir a casa e sentir que ainda não é seguro pedir aos meus pais para me virem buscar está finalmente a pesar nos meus dias. E, por isso, tudo o que ouço adensa esse sentimento de incompletude. O fim do estado de emergência de pouco serve, ante o medo.

Como dizia o Eça, “para todo o homem, mesmo o mais culto, a humanidade consiste essencialmente naquela porção de homens que residem no seu bairro”. E, no bairro que é o meu quarto alugado, é o medo do vírus que agora reside. Por isso, tudo o que ouço consiste essencialmente nesse medo. Dá-lhe, Abrunhosa! “Um café a fechar, um aviso na porta, um bilhete no ar, uma praça aberta, uma rua perdida, uma noite encantada para o resto da vida”.

Só peço que não tarde muito até voltarmos a tirar o encanto à noite, OK? Ou, no mínimo, até poder voltar para casa sem medos. Essa melodia renovada bastava-me.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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