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O dia em que o mundo parou – 2

Levantou-se e ajeitou a saia. Foi até à porta para os receber, com o seu melhor sorriso e a sua postura mais confiante.

“Dra. Paula?” perguntou-lhe o agente mais velho. Mostrou o distintivo da polícia judiciária.

“Sim, entrem” deu um passou-bem firme a cada um, e apontou para o grande sofá que tinha encostado a uma das paredes. Era preto, de cabedal. Ela sentou-se na sua cadeira, numa posição clara de quem marca poder. Mas o seu sorriso era inocente.

“Viemos falar-lhe de um atropelamento que houve esta madrugada.”

Foram rápidos, pensou ela. O sorriso não lhe saiu dos lábios vermelhos, e fez uma expressão de confusão com as sobrancelhas perfeitamente arranjadas, como se não entendesse o porquê daquela visita. Os agentes olharam-se de uma forma que ela não soube ler. Sentiu-se confiante; naquela sala grande, com um tapete caro e quadros abstractos pendurados nas paredes, mostrando que tinha dinheiro e bom gosto, era ela que mandava. Não tinha dúvidas que a sua beleza e charme a roçar a perfeição a protegeriam.

“Pode acompanhar-nos?” perguntou simplesmente o agente mais novo.

“Compreenderá que sou uma pessoa muito ocupada, se me disserem o motivo…”

“Hoje de manhã” interrompeu-a o mais velho, que parecia farto daquela fachada. Talvez tivesse um ódio claro por pessoas ricas, pensou ela “morreu uma pessoa que foi atropelada esta madrugada na zona da Lapa. Algumas testemunhas viram-na a fugir, anotaram a marca e modelo do carro, a matrícula do mesmo, e deram-nos uma excelente descrição sua. Poderá, agora, acompahar-nos e prestar declarações?”

O seu sorriso desapareceu. Testemunhas. Àquela hora da manhã, nunca pensou – nem viu, nem se lembrou de ver! – que pudesse haver sequer uma alma na rua. Odiou-se por não ter previsto esse risco. Odiou as testemunhas, que deveriam estar a dormir. Odiou o desconhecido por se ter posto à frente do carro dela. Mas nada mostrou. Levantou-se com uma postura firme, pôs uma cara séria, e ajeitou de novo a saia. Pegou no casaco e dirigiu-se à porta, esperando que um dos agentes a abrisse. Ao dar o primeiro passo fora do seu gabinete, da sua zona de conforto, do lugar onde liderava e era Deus, disse simplesmente, falando com os agentes mas olhando para a sua secretária “quero o meu advogado”.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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