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ContosCultura

Pós de prata

Abria a janela e espreitava as ruas à espera de ouvir vozes, pensamentos incertos, queria saber se as pessoas tinham voltado a passear as suas tristezas com trelas de prata. Respirava fundo para sentir se o cheiro que queimava as pedras da calçada era ainda o do medo disfarçado de silêncio. Não queria que ele entrasse e vivesse entre as fendas das paredes e da pele.

Abria e fechava janelas. A esperança era uma lagarta encolhida num alvéolo do seu pulmão. Não a deixava respirar bem, mantinha-a numa cela feita de ilusões. Um dia, iria tossir uma borboleta. Talvez então se sentisse aliviada. As asas que lhe dariam a liberdade ainda eram pequenos embriões de sopros ou de choros que se ouviam muito ao longe.

À janela, lia, pensativa. Sentia-se idosa nos seus jovens vinte anos. Os que passavam, poucos, escondiam-se de emoções e de sonhos. Ela lia as almas que ainda se atreviam a ter corações a bater. Cosidos com finas linhas de sonhos pueris e desgostos de rasgar cartas que jamais seriam escritas. Sangue seco com crostas de saudade, assim eram os passeios onde a prata não tinha ainda chegado.

Bateram-lhe à porta. Era inegável ouvir a solidão nos nós dos dedos que estavam do outro lado. Andou com dificuldade; a vida tinha a mania de se alojar nas articulações e pesar-lhe. Abriu e espreitou para a escuridão do prédio.

“Desculpe, é a senhora que vende as correntes de prata?” uma voz suave.

Virou a cabeça para trás e olhou para as trelas que tinha penduradas no tecto. Correntes grossas e finas, entrançadas, simples, redondas. Esmerara-se tanto a fundi-las, a moldar cada aro, a torná-las bonitas para que as pessoas soubessem que podiam carregar as suas dores com algum encanto. E agora há tantos anos que estavam cheias de pó e de abandono.

Aquela pergunta seca e educada levou-a a tempos em que a prata tinha um outro valor. Não de juntar elos que se isolaram, mas sim dedos inocentes que se uniam. Por momentos, tocou na memória do dia em que recebeu o seu primeiro anel de amizade. Eram dias de claridade sem agulhas finas onde os apertos de linha se faziam sem dificuldade. Os joelhos ainda não sabiam o que eram saudades e por isso sorriam como se fossem pequenas hienas.

Olhou para os dedos. Que seria feito dos anéis? Depois recordou. Sim, já não se podiam usar, eram símbolos de alegrias e tinham sido banidos. As dores tornaram-se obrigatórias e tinham que ser passeadas, com rotinas certas, para não se transformarem em monstros de cabedal. A comunicação era nula, pois o som da prata abafava os pensamentos.

“Sim, sou eu. De que tamanho é a sua dor?”

A voz surpreendeu-a. Há quanto tempo não falava? Desconheceu-se e, no entanto, não deixou de gostar de se ouvir. Era aquela a sua voz? Parecia-lhe desprovida de alma, a tal que ela colocava nos encaixes que se uniam de forma arbitrária.

Pela janela aberta, aventurou-se uma ave minúscula que veio pousar na sua mente. Sentiu um bater de asas nos pulmões. Era real ou apenas a vontade de tudo voltar a acontecer?

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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