O cavalo de D. Sebastião

Aquele cavalo era estranho, era especial, era-lhe especial. Ele sabia-o e sentia-o. Compreendia-o e falava com ele pelo olhar. O cavalo quedava-se diante dele em pose de comando e feições de um ser submisso. Aguardava um pouco e ele fazia um sinal deixando-o partir, livre, ausentando-se daquela vida. Não fazia sentido não o permitir porque o cavalo iria na mesma. Aqueles gestos eram apenas a amizade a impor-se perante o destino já traçado. Era o respeito mútuo entre dois seres que dependiam um do outro.

Todas os dias ao final da tarde Duarte deixava o seu cavalo solto nas franjas da aldeia. Ali o pasto verde estendia-se para lá do alcance da vista e fazia o seu cavalo sorrir. Ao lado, o pequeno estábulo de madeira e odores de palha fresca era visitado apenas na noite profunda. Nas manhãs, Duarte encontrava-o sempre bem e alegre. Ninguém fazia mal ao cavalo porque ali na aldeia, terra de tradições e histórias lentas, o mal não era ensinado às crianças. A única regra era da amizade, mundo pequeno de margens tão vastas quanto o olhar permitia nos dias claros. Nos dias escuros, a vida parava na aldeia, excepto para o cavalo de Duarte.

Os dias escuros eram os dias do cavalo viver para si próprio. Eram os dias em que a humidade inundava as ervas, as flores, as árvores, com persistentes gotas de orvalho. Eram as manhãs frias adensadas por um longo e impenetrável nevoeiro que se estendia na imensidão da planície e no tempo.

Nessas manhãs o cavalo de Duarte esperava-o impaciente, olhava-o e partia. Partia num rápido galope para mergulhar no nevoeiro onde ninguém havia para o ver. Duarte sorria a vê-lo afastar-se. Sabia que ao final da manhã, quando o meio dia expulsava as nuvens rasteiras, o seu cavalo regressaria. Regressaria por vezes mais alegre noutras entristecido. Regressava sempre com aventuras para contar, com frustrações para descarregar.

Numa dessas manhãs, o frio fez Duarte resguardar-se na sua casa depois de soltar o seu cavalo. A aldeia estava de novo submersa no nevoeiro que viajava pela extensa planície verde e dourada. A meio da manhã o som de cascos na pedra negra da rua fez Duarte levantar-se e correr para a porta. O seu cavalo surgiu cansado pedindo água e alento. Tinha no olhar a expressão do desânimo e peso do cansaço. Duarte protegeu-o. Enquanto o levava para o pequeno estábulo, passou os dedos pela crina e sentiu-a seca, queimada pelo um sol abrasador. Lá chegado, limpou as longas e musculadas patas que estavam cobertas por uma fina camada de areia dourada. Retirou as ferraduras já demasiado pisadas por si e descansou. Descansaram.

Com a sede saciada e o cansaço combatido, Duarte sentou-se junto do seu cavalo que se deitara na palha fresca. Acariciou-o lentamente sentido o pelo agora lavado. Depois, numa voz lenta e afectuosa, disse na maior das simplicidades: “procura-o nas planícies. Não o vais encontrar nas areias do Sahara. Entende que se foi lá ele se perdeu, será cá irá que se irá encontrar.”

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