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Fartos (desta m3Rda) disto tudo!

A fadiga da pandemia

Estou farta! Estou eu, estás tu, estamos nós. Estamos fartos!

Estamos fartos de ligar a televisão e ouvir “covides”, de abrir o jornal e ler “covides”, de pegar no telemóvel, abrir o Facebook e ver “covides”. Estamos fartos. Estamos fartos dele, do tal covid. Fartos de viver com ele sem o termos convidado para as nossas casas, para a nossa vida.

Estamos fartos!

Estamos cansados. Cansados de medidas, cansados de máscaras, cansados de lavagens de mãos, de desinfectar sapatos, de ter o álcool gel na lista do supermercado. Estamos cansados, tu estás cansado, eu estou cansada.

Estou receosa. Estamos receosos. E quem não fica? Não se trata de ter medo do bicho papão que é o covid, não se trata de fechar a humanidade em casa à espera que ele apanhe o primeiro Tesla para Marte, nem tão pouco se trata do medo do “irmos todos morrer” porque efectivamente vamos. O meu receio não é esse.

Se, há oito meses sair de casa era, para muitos de nós, como avançar fortemente para o desconhecido: roupa da rua, que ao fim do dia era lavada religiosamente a 60°, solas que pisavam só e apenas o asfalto, banhos de manhã e à noite, mudança completa de indumentária ao chegar a casa… A casa, esse porto seguro que, de porta bem fechada, mantinha o tal “bicho” lá fora. Sair de casa para trabalhar, pelas 7:30 da manhã era como atravessar o set do “The Walking Dead” não se via vivalma. Passámos do inverno à primavera em tempo de “COVID”, estou até convencida que a própria (Primavera) não sabia que chegava. Havia palminhas à janela, hospitais de campanha, conferências de imprensa. Havia medo. Sim, medo do desconhecido.

Nunca na história da humanidade, pelo menos de quem cá anda, tinha aparecido um bicho destes.

No início era isto.

Depois veio o Verão, vieram as primeiras proibições. Veio a crise anunciada para o sector do turismo e da restauração. Vieram semáforos nas praias e noites estranhamente calmas de Verão. E, se os portugueses tentavam manter os cuidados, vieram os turistas, fugidos da pandemia do resto da Europa, vieram aos molhinhos: 1000 holandeses para Albufeira, 200 Franceses para o Porto… Ah e já me esquecia dos festivais adiados e outros nem tanto, das festas canceladas nas aldeias e as touradas de Agosto na cidade “realizadas com (pouco) cuidado”. Desapareceram os “toda a noite” ou “o primeiro beija-beija foi atrás da igreja” que ano terrível para ser adolescente!

No entanto, com a Silly Season, veio a diminuição de casos “covid” os números desceram! Chorou-se de alegria no primeiro dia sem óbitos!

Ufa.

E eis que chega Setembro, que enviamos miúdos para a escola. Que regressamos à “nova” normalidade. Eis que chega o Outono, traz com ele a temida nova vaga. E se ela veio com força: não é uma vaga… É um verdadeiro tsunami. Os números sobem, de repente já são 1000, 2000, 5000. Já não choramos de alegria por um dia sem óbitos há meio ano, choramos sim 60, 70, 80 mortos diários: 80 pais, tios, e avós de alguém. Já não batemos palmas.

As medidas mais ou menos severas regressam. Se fazem sentido? Pouco ou nenhum! Se são necessárias? Sinceramente já não sabemos.

E agora!? Estamos todos cansados desta m****… disto tudo. Estamos a ver o inverno a espreitar e a quarta estação é a do Natal, a da família, a dos abraços. É a estação dos domingos à lareira, dos almoços de família e dos animados jantares de Natal e o que nos espera? O tal Natal diferente.

Eu estou cansada, tu estás cansado, estamos todos cansados. Já ninguém muda de roupa ao chegar a casa, já se brinca com a máscara de uso obrigatório, já se prevarica, o cansaço e a incerteza trazem este desleixo de oferta.

As opiniões são tantas e tão variadas que já não sabemos em quem acreditar, quem fala a verdade, quem se quer aproveitar e quem quer o nosso bem.

Estou farta. Estamos fartos.

A fadiga é real. Pela primeira vez foi usada a expressão “fadiga da pandemia”, reconhecida pela OMS como sendo normal nos dias que correm: um direito que nos assiste como humanos que somos. “A fadiga pandémica evolui gradualmente com o tempo e é afetada pelo ambiente cultural, social, estrutural e legislativo”, diz a OMS.

Resumindo, esta fadiga, este cansaço que todos sentimos diminui-nos a vontade para manter os cuidados. Afinal “vamos todos apanhar” ouve-se por aí. Afinal isto é mais que “uma gripe” é uma “arma política”.

Multiplicam se os grupos pela verdade, os convites de Wathsapp para desrespeitar, para entrar supermercados adentro a lamber embalagens. Multiplicam se teorias de mais ou menos conspirações. O cansaço acumulado e a vontade de voltar ao antigo normal impelem-nos a acreditar, a partilhar estas ideias.

Estamos cansados. Estamos todos cansados, mas ainda temos cabeça para pensar. Vejamos: são medidas contraditórias? São. Concordamos cegamente com tudo? Não. Devemos simplesmente fazer assim, porque nos dizem? Não. É mais fácil acreditar que não nos chega? É. É um verdadeiro flagelo para famílias que perderam negócios e rendimentos? Sem dúvida que sim.

Mata? Mata, pois. Mata só velhos? Não. E mesmo que assim fosse, são vidas. Há soluções verificadas? Não. Temos sugestões construtivas? Não tenho, pelo menos eu!

O que fazemos?

Fazemos o melhor que sabemos. Mantemos a sanidade e avaliamos o que nos rodeia. Tentamos viver cada dia com a maior normalidade possível, não a antiga, não a nova: a nossa! Se usar um pedaço de pano na cara nos permite ir com relativa segurança lanchar à pastelaria, porque não? Se podemos comprar na loja de rua em vez de no shopping atulhado de gente, porque não? Se pudermos ajudar a amiga que faz bijutaria e vende on-line, porque não? Se desinfectante não faz cair os dedos, qual é o mal? Tudo isto resulta? Não sei, acho que ninguém sabe ao certo, mas minimiza o risco, para já é o que sabemos que resulta.

Eu estou farta, tu estás farto: estamos fartos, cansados, saturados, mas estamos vivos!

Andreia Mendes

Natural de Caldas da Rainha, 36 anos. Licenciada em Educação Social. Mulher, Mãe de dois. Com paixão pelas pessoas, pelas palavras, pelas acções, pelo teatro, pela música e claro pela escrita! Incapaz de compreender algumas injustiças por esse mundo fora, por esse tempo adentro.

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