A Madrugada que eu esperava

“Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitam a substância do tempo”

Sophia de Mello Breyner, em O Nome das Coisas

Em primeiro lugar, quero partilhar convosco as razões por que escolhi ir ver este espectáculo musical. Desejava comemorar os 50 anos do 25 de Abril e nada melhor do que comemora-los com cultura e arte. O meu pai foi um Capitão de Abril, motivo de grande orgulho para mim, daí esta data ser marcante.

Foi um privilégio ter a companhia de duas artistas mega talentosas como a Bárbara Tinoco e a Carolina Deslandes. Sou fã de ambas. São elas que assinam a autoria da música do espectáculo.

Do elenco também fazem parte nomes como o actor Diogo Branco, Brienne Keller, Dinarte Branco, JP Costa, João Maria Pinto, Jorge Mourato, José Lobo, Maria Henrique (encarregue também da direcção de actores), Mariana Lencastre e banda ao vivo. O texto original é de autoria de Hugo Gonçalves e a encenação está a cargo de Ricard o da Rocha.

Este musical conta-nos uma história de amor proibido entre Olívia (Bárbara Tinoco ou Carolina Deslandes, em dias alternados) e Francisco (Diogo Branco). Neste dia 18 de Fevereiro, foi a vez de Carolina Deslandes ser protagonista.

A acção desenvolve-se, sobretudo, entre 1971 e 1975, porém, no final, o tempo salta para 2024, o ano em que se comemoram os 50 anos da “Revolução dos Cravos”. 

Olívia e Francisco conhecem-se num grupo de teatro amador que está a produzir uma versão musical de Romeu e Julieta. Ela é uma rapariga arrojada, cheia de convicções e ideias progressistas. Lê livros proibidos, fuma e vai sozinha ao café. Luta contra a ditadura vigente. Ele é um jovem reservado que sonha ser actor de comédia. É mais conservador. O seu pai faz parte da PIDE e não aprova a sua carreira artística. Por isso, Francisco vai aos ensaios às escondidas. Sentem-se atraídos um pelo outro, a paixão desperta e “está cada um na sua casa a quererem ser casa um do outro”.

Sucedem-se uma série de encontros e desencontros entre os dois.

A família da Olívia (composta pelo pai e pela irmã Clara, Bárbara Tinoco) parte para França, para fugir de um regime de ditadura. Francisco vai para a Guerra no Ultramar.

Reencontram-se no ano de 1974, em plena revolução, e mais tarde voltam a separar-se.

A melodia das canções que Carolina Deslandes e Bárbara Tinoco interpretam toma conta de nós e encantam-nos. Estão cheias de mensagens. Sentimo-nos emocionados, colados também às mudanças de cenário e ao enredo. Rimos e choramos ao mesmo tempo. Apetece-nos saltar para o palco. Dançar, cantar, festejar com os actores.

Limitamo-nos a levantar-nos do nosso lugar no final do espectáculo. Para aplaudirmos de pé, durante muito tempo, porque toda a equipa merece ser homenageada. É um hino a Abril, mas também uma tomada de consciência. A nossa Liberdade não é um bem adquirido.

Amei e vale a pena irem assistir.

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