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Contos

O Padroeiro das Viúvas

Era isto, tal e qual, o que eu escolhia para ser – o Padroeiro das Viúvas. Não conheço, imagino ou sonho, nada que se possa igualar a ser o homem do colo de todas elas, o primeiro que escolhem logo após ir-se o amor. O homem de confiança do mais desconfiado dos seres. O escolhido para o embalo do sufoco. O vigilante de rezas que contam dos tantos desgostos do corpo e das espinhas cravadas no céu da boca. Um copo de água com açúcar de batina posta.

Se lhes fosse o Padroeiro, cabia-me ver escorrer-lhes as lágrimas pelas rosas das faces, sofridas de maltratadas, malandras, submergindo decotes adentro, perdidas nos seios sufocantes que, por este caminho, mergulham num escuro profundo tal e qual aquele de alma de onde saíram. Das lágrimas não me daria dó, gozam do doce conforto que são os seios de uma mulher, o melhor regalo de que há memória. Saiba-se que só me uso deste comentário por não ser ainda possuidor do nobre estatuto de Padroeiro das Viúvas. Se não o sou, conforme me é o sonho, que tenha pelo menos a liberdade de fazer voar palavras livres. Os Padroeiros devem ter a boca engaiolada, consta do divino preceito quotidiano.

Daria eu Padroeiro de bons modos, sem me descair os olhos vez que fosse para os decotes, poços lacrimais abençoados, ciente da minha Santa condição. Entregar-me-ia apenas a colher os choros às viuvinhas e às já cansadas da viuvez.

Não nego que haveria de me dar festa as que rezam à pressa, pelo medo do invisível que tanto se apregoa e sussurra. A reza mal disfarçada de quem preferia estar antes agradecendo o peso que a morte sugou. Há maridos que não valem o título. Não negaria colo a nenhuma, Padroeiro de mão-cheia não julga estas particularidades de fingimento. De batina erguida, só tinha serventia de ali estar para quando me quisessem. A nobreza de afagar mulheres em dor. Não que seja belo vê-las em sangue, mas pelo orgulho que me daria ser a escolha das que carregam a má sorte dentro. Ser um homem da confiança de todas é feito de Santo. Tenho para mim que é por isto que existem os Santos, para que tenham as mulheres uma referência de confiança.

A morte limpa-nos da maldade, da casmurrice, do que se fez de pouco digno. Há, pois bem, a memória que a terra come. A morte ordena a que fique de nós o bom, mas há mulheres que não esquecem. Farão sempre a ressalva ao Santo, pedindo que lhe leve a mensagem. Se faz isto parte das funções, já desconheço – deve ser coisa a constar dos termos do serviço. Levarão os Santos os recados aos maridos jazidos?

A minha mãe diz que a minha escolha de futuro não tem sentido.

Andamos a tapar os génios com estrume. Diz-se por aí que há cada vez menos génios. Eu, tenho para mim, que é porque os há cada vez mais. E quantos mais houver, mais está o mundo equilibrado. Um Padroeiro das Viúvas e o mundo era outra reza.

Gabriela Pacheco

Formadora. CopyWriter. GhostWriter. Escritora. Gestora de Desenvolvimento e Formação com Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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