O Caçador

Talvez a surpresa em gostar deste filme tenha sido o que, num primeiro plano, retive quando vi O Caçador pela primeira vez. Na lista infinita de filmes, dividida em dois blocos – “gravados” e “a gravar” – a gravação recém-efectuada da obra de Michael Cimino deixou-me com aquele sentimento de ter visto algo grande, mas sem conseguir justificar de imediato. Por vezes (quase todas, mas com as melhores obras, mais ainda), é necessário o tempo deixar a vida decidir o lugar de uma experiência na escala de importância.

A minha mãe havia corroborado a impressão inicial antes ainda de eu ver o filme Esse é o Deer Hunter, não é? ao que de imediato devolvi Conheces? e ela responder somente que “era muito conhecido”. Fiquei com a nota que iria gravar um filme superior, mas, ou não guardei grande expectativa ou o filme acabou por se revelar tão bom ou tão diferente, que a opinião favorável de partida da minha mãe não me estragou o gozo.

Três horas. Uma hora e meia reflectindo um dia de uma comunidade siderúrgica da Pensilvânia, o dia antes de três amigos partirem para o Vietname. Michael, Stevie e Nicky. Outra hora e meia da maior brutalidade que a guerra pode trazer a quem nela participa. E o impacto do regresso, vidas desfeitas. A Cavatina e a guitarra triste chorando a partida dos seus. A primeira nomeação de Meryl Streep e a glória e a maldição de Michael Cimino, que após o sucesso e reconhecimento deste filme se julgou maior do que a vida para cair em desgraça e não mais conseguir obter tamanho sucesso.

Vi apenas uma vez, há muitos anos, Apocalipse Now. O Caçador é o melhor filme sobre a Guerra do Vietname que vi até hoje. Provavelmente por, mais do que um filme bélico, ser um filme triste. A tristeza, quando bem trabalhada, aporta às obras uma dimensão ao mesmo tempo realista e transcendental. O Caçador foi envelhecendo comigo, numa aprendizagem da vida, quiçá antes de tempo, numa inversão de papéis onde, antes de viver os namoros e bebedeiras da adolescência e primeiros anos do pós-parvoíce, me encontrava nos livros, nos filmes e, em menor grau, na música. Este filme foi uma peça essencial dessa construção.

Depois existem Robert de Niro; John Savage; Christopher Walken e John Cazale. E existe Meryl Streep. Uma constelação de interpretações para todos os gostos: o contido Michael, o espalhafatoso Nicky, o ingénuo Stevie, e a sensata Linda. E existe uma obra que se aguenta numa coerência-limite porque tudo acaba por ser perfeito justamente ao arriscar o desastre, como caminhar à beira do abismo ou ensaiar um remate a trinta metros da baliza: se resulta, é a glória, caso contrário, o desastre.

Cinco óscares em 1978, incluindo Filme e Realizador, sabem a pouco, pois um filme como este, algures entre o comercial e o Cinema de Autor, é muito mais do que os prémios ou do que estas ou outras palavras conseguem reflectir. Para mim, grande parte foi o indizível, o que me ficou e que dificilmente consigo traduzir. Isto é apenas a parte visível do iceberg. A parte essencial do que ficou gravado permanece submerso. Não da minha consciência, mas da linguagem.

O filme traz-nos tanto que da história não vale a pena destapar o véu. Avanço que O Caçador me confrontou com um final daqueles que nos deixam com O que é que se passou aqui?! para, assentada a poeira, ficar a trabalhar em nós uma amostra da experiência-limite que é a guerra e, na ausência dessa vivência na primeira pessoa (felizmente), nos oferecer um bocadinho mais de vida através desse maravilhoso caminhar no fio da navalha que o Cinema também pode ser.

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