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Fernando Mamede está deprimido

Li há dias, no Postal do Dia de Luís Osório, que Fernando Mamede está deprimido.

Fernando Mamede já não era atleta, quando comecei a correr no desporto amador, no Clube Desportivo da Costa do Estoril. Nos anos 90, durante quatro anos participei, à razão de vinte provas por temporada, em corridas de estrada nos concelhos de Cascais, Sintra, Oeiras e Lisboa. Foi uma época bonita, onde, durante os dois anos de iniciado, outros dois de juvenil e parte do primeiro ano de júnior, pude experimentar o gozo que era a corrida de competição… e o stress que era a corrida de competição.

Quando comecei, depois de, num corta-mato escolar ter obtido uma boa classificação e alguns miúdos que já corriam no CDCE me terem dito para aparecer nos treinos, ao final da tarde, a minha mãe disse-me que ia ser como o Carlos Lopes, mas não como o Fernando Mamede. Esse – dizia ela – desistia sempre. Nunca estava “psicologicamente” preparado. e concluía Quando via que não ia ganhar, desistia!

Passaram 29 anos. O mundo mudou com a revolução de costumes – o aborto e as drogas leves foram liberalizadas, a Igreja Católica e os Sousas Laras perderam a guerra dos brandos costumes e o “respeitinho” pelos mais velhos foi sendo substituído pela liberdade de nos afirmarmos na discordância (esqueçamos estes últimos dois anos de wokismo, que ainda não sabemos para que lado penderá) – e com a revolução tecnológica (a internet revolucionou o nosso acesso ao mundo inteiro e os smartphones e os computadores portáteis o nosso acesso a todos aqueles que nos rodeiam, as redes sociais aproximaram-nos, uns dos outros e a nós dos ódios, sentimentalismos, egocentrismos e infantilidades viscerais), os GPSs substituíram os mapas, a rede rodoviária, o acesso generalizado à cultura… é todo um outro mundo este em que vivemos hoje, quando comparado com esse outro de 1994, em que os trabalhos na escola eram feitos em cartolinas, com fotocópias coladas e textos escritos à mão.

Parece incrível que só no último ano, talvez dois, no meio de tanta evolução que veio facilitar as nossas vidas (e também trazer algumas preocupações), a saúde mental tenha ganho uma posição de destaque nas prioridades da população ocidental, apesar de sempre terem existido problemas mentais (ou falta de saúde).

Nos últimos Jogos Olímpicos de Tóquio, a ginasta norte-americana Simone Biles prescindiu de participar em algumas provas devido a questões relacionadas com a sua saúde mental. Já antes a atleta portuguesa Vanessa Fernandes, medalha de prata do triatlo em Pequim, 2008, havia desistido da carreira (ou feito uma longa interrupção) decorrente de problemas relacionados com a bulimia e a depressão.

Foram casos diferentes, que reflectem o hiato temporal entre 2008 e 2021: no caso de Vanessa Fernandes, as causas para o seu desaparecimento iam sendo sopradas em surdina, num diz-que-disse sem certezas, como se fosse uma desonra assumir um problema que não se restringisse a uma contratura, rotura de ligamentos ou mialgia de esforço; o problema de Simone Bails surgiu treze anos mais tarde e o mundo era outro, felizmente, sem com isso deixar de ter sido pioneira na forma como assumiu, sem espinhas nem teorias semi-escondidas, as consequências nefastas a que uma atleta de alta competição está sujeita.

Regresso a 1994 e ao prognóstico da minha mãe: era tudo tão diferente que o que hoje nos parece uma insensibilidade extrema era linguagem e opinião corrente nessa altura, tal como um machismo ou racismo sistémico – só podia ser mulher ou tinha que ser preto – ainda que estes já então fossem olhados com desconforto e objecto de alguma condenação social. Só que a saúde mental não: essa era quase totalmente encarada como um problema de malucos ou de fracos de espírito. Dizer hoje o que a minha mãe dizia há vinte e nove anos é muito mais condenável (o que é diferente de cortar a palavra a quem o diz). Mas foi assim que crescemos.

Também eu sentia pressão no início de cada prova, sobretudo depois das primeiras corridas em que participei, onde a descontração de nada conhecer acerca do mundo dos troféus concelhios me levou a dois primeiros lugares e a sentir o “peso” da responsabilidade nas provas seguintes. Comecei a vacilar e a fazer contas de cabeça, de cada vez que, congelado ante a expectativa do tiro de partida, olhava para a concorrência e me via inferior a todos eles. Os músculos das pernas demoravam a soltar-se, por vezes, só ao fim de quilómetro e meio (a distância de iniciados eram 2.000 metros) e lá ia eu para quarto, sexto ou nono, nunca ficando satisfeito depois do que prometera nas corridas iniciais.

Ele não é nenhum campeão! dizia-me o treinador, José Nunes, as palavras comidas por trás da farta bigodaça, acerca de um ou outro miúdo de uma equipa adversária de quem eu mostrava receio. Mas o peso da responsabilidade esmagava-me. Uma responsabilidade que ninguém a não ser eu trazia para cada corrida, pois ninguém me pressionava para ganhar o que quer que fosse ou ficar neste ou naquele lugar. Eram só umas corridas de bairro, merdosas, e eu era um puto que mal havia entrado na adolescência.

O que não deverá ter sentido Fernando Mamede, recordista mundial dos 10.000 metros, um atleta de elite com um legado tão pesado para defender, como se depois de atingir o topo ganhasse o direito (ou o dever) eterno de provar que um record do mundo não caíra por acaso naquela tarde de Julho de 1984 em Estocolmo? O que não terá sentido Fernando Mamede, um ser humano, talvez um pouco mais humano que os demais atletas com quem competia, sentindo a pressão dos campeões tão antes de tempo, deste tempo em que falarmos de uma ida ao psicólogo ou admitirmos estarmos deprimidos começa a não causar engulhos a quem ouve?

Dez anos antes de eu esgalhar uns quilómetros ranhosos nas manhãs de domingo, entre as borbulhas da adolescência, o início dos namoricos e o contacto com o odor e a fome de companheiros de jornada, miúdos que não tomavam banho e chegavam às provas sem pequeno-almoço, já Fernando Mamede havia mostrado que sabia ganhar. Mas ganhava quando lhe dava prazer correr; não quando os outros lhe diziam que agora era a valer, um Mundial, Europeu, Jogos Olímpicos.

Estamos longe de nos educarmos para a cooperação. Talvez até mais longe do que no tempo de Fernando Mamede. Continuamos a endeusar a competição, talvez mais do que nunca, com as redes sociais e a necessidade de cumprir, cumprir bem e depressa. Fernando Mamede mostrou-nos, então como agora, o que é um ser humano completo, o que é um homem capaz das maiores façanhas e de sentir a vida em toda a sua fragilidade. Ser humano é isso, umas vezes assim, outras assado. Assumi-lo terá sido a sua corrida mais difícil. Deixou marcas: as marcas que alguns ex-atletas carregam para a vida. Só que estas marcas nesse tempo, não eram aceites como tal. Talvez hoje o homem possa encontrar alguma da compreensão de que necessitou quando poucos estavam disponíveis para lha dar (muitos nem sequer sabiam como fazê-lo).

Olho hoje para trás, vinte e nove anos atrás, e deste ponto de vista, gosto das corridas desse adolescente de treze anos. Não gostava tanto na altura, nem mesmo quando, no segundo ano de iniciado, venci o troféu do concelho de Cascais. Uma vitória não vale semanas de provações, noites mal dormidas a pensar na corrida, se o Nelson, o Luís ou o Hernâni vão aparecer e assim fazer nascer em mim o medo de partida, para no final, qualquer que fosse o resultado, descomprimir como se tivesse acabado de salvar a minha vida. Se foi assim, sendo eu um mero desconhecido, o que não teria sido com os olhos do mundo postos em mim?

Fernando Mamede tinha o mundo a olhar para ele e triunfou. Talvez tenha triunfado mais do que os outros (não o sabemos), por ter que vencer também os adversários internos.

Hoje está deprimido e isso não é bom. O que é bom é podermos falar disso sem nos isolarmos ainda mais. Felizmente sobreviveu a um tempo de trevas para poder começar a caminhar em direcção à luz. Esta continua longe, ao fundo do túnel, mas a escuridão já não é completa. Talvez seja mais poesia do que verdade dizer-lhe que por tudo isto é um verdadeiro campeão, pois creio que ele dispensaria de bom grado todas as limitações com que a puta da cabeça o travou na corrida da vida. Mas felizmente triunfou apesar dos fantasmas, e isso é que não é mesmo para todos. Pode o record do mundo ter sido a vitória menos importante da vida deste homem, mas se outra função não cumpriu, demonstrou, no meio de todas as suas dúvidas, de que era capaz. Não de vencer. Não de ser o melhor do mundo. Mas de se divertir a fazer o que gosta. Oxalá consiga encontrar igual gozo na vida.

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