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Jack of Hearts – parte II

A Rosemary logo começou a beber visivelmente muito. Estava distraída no álcool a olhar o seu próprio reflexo na lâmina fria de uma faca. Estava cansada de ser alvo da atenção dos homens, desgastada por fazer o papel de mulher do Big Jim. Tinha feito uma série de coisas más, até o suicídio tentou certa vez. Mas estava à espera da oportunidade para fazer a boa ação de uma vida antes de morrer. Estava a olhar o futuro e olhar para o Jack of Hearts.

A Lily despiu-se e atirou o vestido para longe. “A tua sorte a cabou?”, disse rindo-se para ele. “Bem, tu sabes que um dia ela iria terminar. Cuidado, não toques na parede. Está pintada de fresco. Fico contente por saber que ainda estás vivo, pareces um santo.” Falava enquanto descia o corredor caminhando em direção ao Jack of Hearts.

O gerente estava nos bastidores andando em círculos em redor de uma cadeira. “Vai acontecer alguma coisa estranha.” disse ele, “consigo senti-lo no ar”. Foi buscar o juiz mas já o encontrou bêbado. O actor principal apressava-se a vestir um traje de monge. Não havia em lado algum actor melhor que o Jack of Hearts.

Ninguém sabe em que circunstâncias mas todos dizem que aconteceu tudo muito rápido. A porta do vestiário abriu-se de rompante e um revólver frio cantou. Big Jim ficou parado, imóvel, não exatamente surpreso. A Rosemary bem a seu lado com o olhar firme. Ela estava com Big Jim mas debruçava-se sobre o Jack of Hearts.

Duas portas derrubadas e os homens conseguiram finalmente atravessar a parede e limparam o cofre do banco. Diz-se que saíram dali com avultadas riquezas. No escuro, esperaram deitados no chão junto à margem do rio. Faltava um elemento do grupo que tinha ido à cidade resolver um assunto em suspenso. Eles não podiam continuar sem o Jack of Hearts.

O dia seguinte foi dia de ócio. As nuvens pesavam no céu e a luz do dia era negra. Big Jim já estava enterrado, morto por um canivete nas costas e Rosemary estava na forca. Com a corda ao pescoço nem piscou. O juiz estava sóbrio, ainda nada tinha bebido. A única pessoa que faltava naquele cenário era o Jack of Hearts.

O cabaret agora encontrava-se encerrado. Num letreiro à porta lia-se “Fechado para reparações”. Lily já tinha tirado a tinta do seu cabelo. Pensava no seu pai. Raramente o via. Pensava em Rosemary e pensava na lei, mas acima de tudo, pensava no Jack of Hearts.

Nota do autor; Uma homenagem a Bob Dylan. Este conto traduz a história presente na música “Lily, Rosemary and the Jack of Hearts”.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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