Uma rajada cheia de nada

Estava aqui a pensar no que escrevo. No que devia escrever e não escrevo. No que gostaria de escrever, mas que me varre da memória. E em tudo o que penso antes de escrever.

Todos os grandes escritores situam os seus leitores no espaço social, temporal ou histórico. A mim pouco me certifica que algum dia aspirarei a uma ou que tenha pessoas conscientes que cliquem no botão esquerdo do rato para ler isto mesmo.

O que eu própria não sei o que é.

Contudo, ia a dizer, se algum dia alguém quiser saber, que estou há mais de 5 horas num carro, de regresso de umas férias de verão, onde vi tudo menos o verão, porque esse se encarregou de esconder atrás do algodão doce no topo do mundo.

Estou cansada e pouco sei conjugar, mas não me querendo repetir, também não haveria mal se o fizesse, os grandes autores também fazem tudo isso. Repetem se e escrevem cansados.

Não tenho posição para as pernas, que sim de facto são excessivamente grandes nem para a mente que está ocupada com as trezentas coisas que pensas, quando chegas de férias. Aqui que ninguém nos ouve, todas bem agrupadinhas em combinações de 300, uma a uma, não dão mais do que duas pingas de sumo de laranja natural bem frescas.

Peço desculpa, aos meus leitores, se esses continuarem a existir depois destes parágrafos aleatórios como os bocados soltos do meu cérebro, por isto ser tudo menos algo apetecível de ler.

A verdade é que escrevemos o que pensamos, mas, se em nada refletirmos, acabamos por escrever aquilo que a nossa mente se capacita.

A lista de compras da vossa casa tem o corredor, a marca e a cor da embalagem da pasta de dentes que acabou e que para bem de todos é urgente ser reposta. Não precisas de pormenorizar tudo o que necessitas de verdade.

Sinto neste momento carência de um sofá comprido, o meu serve, para esticar as pernas, um pêssego bem fresco e dois copos de água, mas será que preciso disso tudo? Talvez não.

Talvez viveria muitíssimo bem, se estas 5 horas não me levassem de volta para a realidade e me conduzissem até uma nova aventura da minha vida. Pensando nessa hipótese surge-me automaticamente mil e uma situações hipóteses e possíveis dores que sentiria na altura. Aparece tudo, não o par de botas, porque o verão aqui não anda escondido, mas também não está à mão de semear, anda ao sabor do vento, e muito por onde escrever.

Podia parar isto e pensar o porquê do verão ao sabor do vento ou o porquê da vida ao sabor da maré. Podia fazer isso tudo e rematava com um pontapé de pé esquerdo, tendo eu força na perna direita de dizer que no dia em que conseguirem perceber no que é que eu penso o mundo ficará tão ou mais confuso que isto.

Isto que agora à minha primeira vista, não se assemelha a nada, mas que está a saber a tanto.

Eu penso, penso um pouco em tudo e tento pensar um pouco no nada. Penso tanto ou tão pouco que já me perguntei trinta e três vezes o porquê de ter a cabeça tão grande, quando ainda baralho a esquerda com a direita. Seja ela política ou manual.

Sim, nós jovens sabemos muito pouco das regras do Estado. Lá está, pensamos em tudo e vocês diriam menos no que interessa, mas aí é que estão muito enganados, porque, ao perceber que penso em tudo, concluo que sei tão pouco ainda.

E como já me disseram uma vez quando mandei aquelas calinadas que sou eu sei dar, os mais felizes são os ignorantes. E se for sempre assim serei uma ignorante que contrariamente ao verão, vai contra o vento.

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