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Janela discretamente indiscreta

A noite amadurecia e era já início de uma madrugada que se adivinhava sem história. O corpo já só feito de cansaço. Um último cigarro. A ilusão de pôr em ordem o dia agitado que termina. A lua a inundar a varanda. A varanda feita espelho fiel da Serra de Sintra. E a lista das tarefas por cumprir a crescer todos os dias.

As janelas já fechadas, mergulhadas na escuridão denunciavam um adormecimento quase coletivo.

Quase coletivo!

O 7º C resistia ainda. A luz branca foi convite para o meu olhar. Não sou de me dedicar a vidas alheias, que da minha já me custa dar conta, mas não resisti a demorar-me por ali.

Por de trás da vidraça, sentada em frente a uma mesa, uma jovem entregava-se à decoração de um pequeno bolo. O computador do lado esquerdo a espátula na mão direita e o verde água lá ia cobrindo à vez, toda a superfície. Curioso perceber que era ainda arte pouco dominada pela artesã. No entanto, o que lhe faltava em perícia sobrava-lhe em tenacidade e persistência.

Sorri ao ver aquela mulher, via-se-lhe nos gestos o carinho e a entrega. Trabalhava com alma e afinco.

O cigarro há muito terminara, mantive-me, no entanto, por ali a imaginar que talvez fosse um trabalho extra. Quem sabe uma forma de amealhar algum dinheiro para além do salário.

A rua adormecida engradecia ainda mais a luta daquela vizinha. Apeteceu-me meter conversa, mas não, não lhe iria interromper a concentração

Admirei-lhe a força. Gente que se recusa sentar e chorar. Gente que levanta e ri perante as dificuldades.  Talvez cansada, mas, no entanto, firme.

Chamemos-lhe Maria, mas poderia ser Aurora ou Catarina, José, Manuel, Vítor…

Sem dar conta entraram-me no pensamento pessoas, muitas pessoas. Gente com quem me tenho cruzado no âmbito das suas atividades “extracurriculares”.

Falo-vos da Dª Aurora que faz umas horas na casa do professor, do Sr. José que apanha berbigão na Ria Formosa, do Vítor que repara carros nas traseiras da casa do Pai, da menina Catarina que faz croquetes para o café do bairro, do, Aníbal o melhor canalizador de Alfama, da Dª Matilde e os dois filhos que trabalham à jeira em terrenos alheios, da Filomena que dá explicações de matemática, da Aldegundes que vende ovos para o restaurante do sr. Pacheco, a Dª Lurdes que consegue milagres com um bocado de tecido e um carrinho de linhas, dos brincos de materiais reciclados do filho caçula da Guilhermina, dos sabões de azeite virgem  da Sofia, que encantavam peles e sentidos… seria lista infindável acaso a quiséssemos completa.

Atividades extracurriculares ou economiazinha paralela?

O que sabemos deste submundo que se movimenta ostensivamente na nossa sociedade?

Existe, mas tentamos ignorar.

Existe, e cresce a cada segundo

Existe, e envolve todos os setores de atividade.

Existe, e ainda bem. Digo eu!

Trata-se aqui de um fenómeno social transversal a todos os países. Em teoria é como se houvesse uma espécie de desvio do comportamento padrão, com um único objetivo:

Lesar o Estado

Esta tendência, tende para uma fuga aos impostos. Será que este comportamento é ele próprio prejudicial para um País?

Há uma transgressão, uma espécie de traiçãozinha ao Estado, mas será suficiente para desacreditador o poder de um país?

Ao falar de economia paralela, fala-se não só de cidadãos, mas também de instituições e empresas. É bom colocar também estes ‘players’ na equação aqui em análise.

No caso das pessoas singulares, o Estado, aparente vítima nesta engrenagem, pode afinal ser carrasco e causa primeira deste comportamento.

Acredito que a quebra de confiança entre o poder político e os trabalhadores comece bem mais atrás. Sem precisão, arrisco afirmar que tudo começa, quando um país não paga salários condignos. Quando o esforço individual e coletivo não é devidamente valorizado. Quando as instituições publicas falham nas suas funções mais básicas de apoio. Quando são desviados para os seus cofres, quantias avultadas em jeito de impostos, deixando um magro rendimento líquido no bolso de cada contribuinte.

São os escassos rendimentos que levam a este desvio no comportamento da economia. Acredito mesmo que este será um processo de ‘ação/reação’, semelhante a uma bola de neve que cresce todos os dias, sem hipótese de retrocesso.

Talvez se o Estado fosse mais equitativo e justo na tributação dos rendimentos, não houvesse esta necessidade de faturar… sem faturar!

Qual a justiça da máquina fiscal? Falemos por exemplo e não por acaso, do nosso admirável País.

As grandes fortunas fogem de forma ardilosa aos impostos, simplesmente porque os seus senhores podem pagar fortunas aos ‘engenheiros fiscais’.

As tentativas supostamente bem-intencionadas para controlar ‘offshores’ e paraísos fiscais não têm tido sucesso e o grande capital, tantas vezes alimentado principescamente por negócios ilícitos e até sinistros continua por aí livre, sem tributação. É aqui que talvez resida o principal problema da tal economia B. Aqui sim, falamos de crime!

Empresas fictícias, operações fictícias, verdadeiros carroceis de transações intracomunitárias para conseguirem ‘sacar’ avultadas quantias em sede de IVA (Imposto sobre o valor acrescentado), continuam por aí sem que a máquina fiscal lhes consiga deitar mão.

O pequeno contribuinte, sem meios para se defender é presa bem mais fácil.

O excesso de controlo degenera num total descontrolo.

Muitos interesses se escondem por detrás desta aparente ineficiência fiscal. Muitos favores, muitas jogadas de bastidores e muito ilusionismo financeiro.

Não acredito que fosse possível um país funcionar sem esta economia não convencional. Haveria mais miséria, mas indignidade. Esta ‘economia sombra’ é afinal uma tabua de salvação, uma espécie de ponte para uma vida digna. Repare-se que em muitos casos, já existe a tributação do rendimento ‘oficial’.

‘Se for com fatura é 123,00, sem fatura 100,00’, parece familiar?

A dimensão da economia paralela, é inversamente proporcional à dimensão da incapacidade de um país para apoiar os seus cidadãos.

Vejam as disparidades entre os países do norte da europa e os do sul.

Não conseguimos adivinhar o impacto da ‘pandemia 2020/2021’ em toda esta dinâmica economicista. Contudo, arrisco aqui que os negócios paralelos vão ser, mais do que nunca essa tal tabua de salvação que muitos ignoram precisar.

Se a recessão se apresentar de fato e gravata, que lhe respondamos com a nossa energia e vontade de fazer acontecer

Obrigada Maria, Aurora, Catarina, José, Manuel, Vítor…. Estou convosco. Talvez por serem heróis sem rosto, talvez por me terem acolhido no seio do vosso inconformismo.

Somos guerreiros sem sono!

Paula Castanheira

Vivo dos números. Débitos e créditos preencheram-me os dias, mas foi nas palavras que encontrei balanço. Sou de partilhas e detesto o 'nacional carneirismo'. Não aceite que me formatem o pensamento e as emoções. A massificação comportamental deixa-me nervosa e adoro falar sobre temas fraturantes. Que se discutam religiões, touradas e sexo, sem rodeios ou medos. Que se assuma o racismo como coisa real e transversal da sociedade. Adoro destronar a mole de indignados de sofá, que prolifera e destrói o pensamento livre. Sou do mar, do sol, das caminhadas. As viagens são um bálsamo pra vida. Uma existência sem livros, é um deserto estéril, sem cor! Aprender todos os dias é o meu lema. A simultaneidade excita-me a energia. Adoro fazer acontecer! Sorrisos, abraços e elogios são remédios infalíveis para muitos dos males do mundo. Sinto enorme gratidão, por um dia ter percebido que os desafios são para agarrar e que levar os dias a cores, torna tudo bem mais engraçado. Porque a vida é mesmo, um lugar fantástico!

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