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Desde o dia em que te vi, Matthew Garber

Não me lembro do dia exacto em que te vi pela primeira vez, mas sei que não chegara ainda à adolescência. O filme fazia parte das obras que eu, a minha irmã (na altura só tinha uma ou, se a outra já era nascida, ainda não entendia a nossa linguagem) e os meus pais víamos nas tardes de sábado, no velho VHS com as fitas comidas pelo tempo e pela sobreposição infinita de gravações com que tentávamos poupar as cassetes e aproveitar a experiência que era ver cinema em casa.

Contracenavas com Karen Dotrice, a tua irmã (sê-lo-á sempre) e juntos eram, num dos filmes que mais magia acrescentou à minha infância, Jane e Michael Banks. Claro que sem Julie Andrews, Dick Van Dyke e as magníficas aparições de Ed Wynn e Jane Darwell, a magia não seria a mesma, mas é incrível como uma das imagens mais fortes que me visita de cada vez que evoco Mary Poppins, são as crianças: tu e a tua irmã.

Numa dessas tardes, recordo-me de os meus pais nos terem convencido a ver um filme alugado no videoclube argumentando que é com as crianças que entraram na Mary Poppins. Não eramos difíceis de convencer mas o nosso sim não foi oferecido por favor: em Os Pequenos Homens da Floresta vimos-te novamente, outra vez com a tua irmã no (pequeno) ecrã.

Já tinha ouvido boatos mas, por alguma razão mais freudiana do que racional, nunca me apetecera confirmar a notícia. Até há pouco, quando me deparei com um artigo na net sobre o 55º aniversário de Mary Poppins que mostrava para onde haviam navegado os marinheiros que mais de meio século antes tinham feito parte da tripulação da “arca da magia”. E lá estava a tua fotografia, com cinco linhas de rodapé a acompanhar. A última frase dizia apenas Morreu em 1977, aos 21 anos, após ter contraído hepatite numa viagem à Índia. Os boatos confirmavam-se.

Podia-me refugiar no sentimentalismo literário e dissertar sobre a beleza de nunca teres deixado de ser criança em todos os filmes em que foste chamado a participar ou acreditar, tal como Peter Pan (curiosamente um filme também patrocinado por Walt Disney), que nunca quiseste verdadeiramente crescer. Mas sabemos que não passam de artimanhas, mais ou menos honestas, para poetizar a brutal injustiça que a vida reservou para ti. Porque não é o facto de eu te recordar com carinho que vai mudar algo na tua existência senão na memória que as poucas pessoas com as quais a minha vida se cruza poderão vir a formar de ti. O absurdo é tal que, se hoje estivesses entre nós, como felizmente acontece com a tua irmã, eu estaria a escrever este texto no plural, para os dois, ou então nem sequer me ocorreria escrever nada para vos oferecer, ainda que nenhum de vós, vivo ou morto, algum dia venha a tomar conhecimento deste curto desabafo.

No entanto, valeu a pena! Valeram a pena os poucos, mas enormes momentos de magia que nos ofereceste, a nós que pertencemos às muitas gerações que continuam a deliciar-se com a Mary Poppins de sempre. E é tão ou mais bonito constatar que valeu a pena quanto isso aconteceu sem que tivesses tido a ambição de o concretizar: A tua carreira terminou aos 11 anos e 3 filmes e se marcaste alguém até essa altura, foi pelo que foste e não pelo que quiseste ser. Quando queremos ser recordados, fazemos merda, quando somos recordados sem querer, acertámos.

Parabéns e obrigado.

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António V. Dias

Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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