Ler juntos para resistir
O conceito de clubes de leitura é anterior ao século XX. Contudo, a sua presença organizada em Portugal é relativamente recente. Durante décadas, o hábito de ler foi visto como uma prática solitária, restrita a círculos académicos ou intelectuais. Apenas a partir das décadas de 1980 e 1990 a democracia da leitura abriu portas aos clubes de leitura. As primeiras experiências estiveram ligadas à expansão da rede nacional de bibliotecas, promovida pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e à criação de bibliotecas modernas abertas à comunidade, incluindo também iniciativas de dinamização cultural.
Estes clubes têm vindo a afirmar-se como espaços privilegiados de partilha, reflexão e encontro. De norte a sul do país, multiplicam-se grupos informais e instituições que promovem sessões dedicadas aos livros, criando comunidades em torno da leitura e do diálogo. Longe das dissertações dos entendidos na área literária, o cidadão comum que gosta de ler e de pensar, tem a oportunidade de apreciar e dissecar um livro. Ler nas entrelinhas, expandir conhecimento, proferir opiniões.
Cada clube tem a sua identidade. Uns focam-se em clássicos da literatura, outros em autores contemporâneos, poesia, ficção científica ou temáticas como os direitos humanos ou a sustentabilidade. A diversidade de formatos permite que leitores de diferentes idades e interesses encontrem um espaço à sua medida.
Muitas bibliotecas municipais têm clubes de leitura regulares, abertos ao público e, geralmente, gratuitos. Estes encontros, promovidos por bibliotecários e mediadores culturais, são um exemplo do serviço público de incentivo à leitura.
Com a pandemia, os clubes de leitura online ganharam força e, mesmo após o regresso à normalidade, muitos mantiveram o formato virtual. Plataformas como o Zoom, grupos no Facebook ou noutros canais permitiram que leitores de diferentes zonas do país e até do estrangeiro pudessem participar, superando as barreiras geográficas.
Os clubes de leitura não se limitam à análise literária. São espaços de escuta, de empatia e de construção de pensamento crítico. Ao partilhar diferentes interpretações de uma mesma obra, os participantes enriquecem a sua experiência de leitura e descobrem novos pontos de vista. Além disso, a leitura em grupo pode ser um importante fator de inclusão social. Muitos clubes integram seniores, imigrantes ou jovens em situação de vulnerabilidade, oferecendo-lhes um espaço de pertença e expressão.
Quem pretender juntar-se a um clube de leitura pode começar por consultar a biblioteca da sua freguesia ou município. As redes sociais também são uma boa fonte de informação. Basta seguir perfis dedicados à literatura ou procurar grupos temáticos em plataformas como o Goodreads ou o Instagram. Ler é um ato solitário, mas partilhar a leitura é um gesto profundamente social. Em tempos marcados pela velocidade e fragmentação da informação, os clubes de leitura oferecem um espaço de pausa, de reflexão e de encontro com o outro.
Ainda assim, muitos clubes enfrentam desafios, como a falta de apoio, baixa adesão em zonas rurais, dificuldade em manter encontros regulares, ou até uma certa informalidade que dificulta a sua continuidade. Mas, a realidade é que em Portugal, este movimento continua a crescer, provando que os livros ainda são pontes entre pessoas. “Ler e escrever é resistir” à indiferença, à injustiça, à violência.
Alguns exemplos de clubes de leitura, a título de curiosidade:
- O Prazer da Escrita – Encontros Literários
- Clube de Leitura Tânia Ganho
- Book Club FNAC
- Encontro de Leituras
- Clube de leitura LGBTI+
- Heóides – Clube do Livro Feminista
- Livra-te
- Clube de leitura antirracista-@quemmelera
– https://www.fnac.pt/10-Clubes-de-Leitura-para-te-juntares/cp7747/w-4
– https://www.fcsh.unl.pt/faculdade/bibliotecas/clube-de-leitura/
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico
Ler, ler, ler e partilhar é extremamente enriquecedor. 👏