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O Avesso do Conforto

Sandra, 40 anos, heroína e vilã da própria história. Uma história que foi redigindo a tinta da china, sem renunciar à letra perfeita que a sociedade lhe exigia. Uma vida aparentemente imaculada: casamento estável, embora lhe faltasse amar. Filhos felizes, embora lhes faltasse tempo para brincar. Uma carreira perfeita, se a apaixonasse. E agora, um cancro pancreático sem possibilidade de cura.

Vivera na zona de conforto, enroscada no sofá dos dias ou passeando pelas rotinas com as mãos mornas enfiadas nos bolsos. Deixara pelo caminho um amor que, sendo imperfeito era, de facto, amor. O amor que desejava ter ao seu lado nesse momento. Como reagiria Pedro se soubesse que a vida lhe ia rareando, juntamente com o cabelo que apertava em mechas na palma da mão?

O marido acompanhava-a à quimioterapia e devotava-lhe uma dedicação que não sabia retribuir. Fora incapaz de lhe provocar a dor da separação, de desiludir os amigos, a família e os filhos. Todos os que lhe gabavam o casamento perfeito. Deu por vencido o risco em favor da supremacia do conforto.

Com o emprego, nada de diferente acontecera. A sociedade e a família aplaudiram o trajeto académico que culminou na licenciatura em Direito. Era advogada, sem paixão. Detestava estudar leis, quando sabia que eram as leis impostas pela sociedade que a haviam atirado para a vida imaculada que não a fazia feliz. Em oposição, sentia-se exultar diante de uma foto captada com mestria. Teria sido uma excelente fotógrafa, não tivesse o pai considerado que fotografar não deveria ser uma carreira, mas um hobbie. A vida financeira desafogada permitira-lhe comprar algum equipamento fotográfico topo de gama que repousava esquecido no escritório, porque o tempo não abundava.

Sempre desejara dançar na chuva, mas não arriscara molhar-se. Sabia que uma vida sem mácula era uma vida insípida, no entanto, a coragem nunca a presenteou com as asas que almejou.

Vivera na senda da perfeição: a alma perfeita no corpo perfeito. Corria entre os julgamentos, a escola dos filhos, o ginásio e os cuidados da casa.  Sonhava, sonhava muito. Nos trajetos, recordava o homem que lhe roubara o coração e gabava a coragem das almas livres .

Entendia quem era feliz no conforto da rotina, mas ela não fora. Vivera agrilhoada a um falso sentimento de segurança. A prova de que a segurança é uma falácia estava agora refletida no espelho, onde via o seu corpo magro e a cabeça nua. Como teria sido se tivesse feito outras opções? Não conseguia deixar de questionar.

Numa dura reflexão, parecia-lhe ridículo que a sua vida tivesse sido condicionada por todos, ainda que a última palavra, a de se deixar guiar por aspirações impostas, tenha sido dela. Fora ela a escolher o caminho que lhe apontaram, era ela a autora da sua história. Parecia-lhe até egocêntrico que tenha alvitrado a impossibilidade do atual marido ser feliz sem ela. Como se residisse em si, a fonte da felicidade dos outros. E, apesar do amor por Pedro, achou que a infelicidade de ambos seria, de todos os danos colaterais, o menor.

No seio de todo o conforto e segurança de que se rodeou, vivia agora o revés que jamais tinha imaginado: entrara, a meio da vida, na sua reta final. E, de todas as dores, a mais difíceis de suportar não eram as dores físicas ou o confronto com a morte, era a certeza de nunca ter vivido. Era a consicência de já não ter tempo para reescrever o rascunho que fez.

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

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