man closing his ear

O assassino pouco silencioso

Pare no centro da cidade e feche os olhos. Buzinas de camiões, máquinas a operar, sirenes de ambulâncias, roncar de motociclos, música alta, zumbidos de aviões, ladrar de cães, discussões no trânsito. Ruído, ruído, ruído. O problema da poluição sonora vai muito para além do incómodo causado; este é um assassino invisível, mas pouco silencioso.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a poluição sonora é a presença de ruídos, isto é, níveis sonoros superiores a 65 decibéis (dB), que causam impactos negativos na saúde humana, no meio ambiente e na vida selvagem.

A curto prazo, o barulho excessivo e constante afeta não só a audição, como causa também fadiga, dores de cabeça, dificuldades de concentração, distúrbios do sono, entre outros. No entanto, a longo prazo, as complicações de saúde podem ser ainda mais severas: alterações gastrointestinais, como indigestão, gastrites, úlceras ou obstipação; problemas psicológicos, como ansiedade, depressão, episódios de irritabilidade ou agressividade; e até problemas cardiovasculares, como hipertensão, acidentes vasculares cerebrais ou enfartes.

O impacto do ruído estende-se à vida animal. A poluição sonora também influencia negativamente os animais, alterando padrões de acasalamento e migração, desequilibrando ecossistemas e levando até à extinção de algumas espécies.

Consciencializar os governos e a população sobre o impacto e riscos para a saúde e criar medidas para a redução dos níveis de ruído são aspetos essenciais para minimizar este problema de saúde pública que é, ainda, subvalorizado.

Políticas preventivas e corretivas direcionadas para uma gestão ambiental do ruído podem passar, por exemplo, pela criação de zonas protegidas contra a poluição auditiva, incentivar o isolamento acústico de novas construções, substituir o asfalto atual por outros mais eficientes ao nível da redução de ruído e impor distanciamento entre áreas residenciais e zonas ruidosas, como aeroportos.

De forma individual, podemos optar por alternativas de transporte como a bicicleta ou os veículos elétricos, respeitar os horários estipulados para a realização de obras domésticas e evitar ouvir música, ver televisão ou realizar atividades de lazer com ruído excessivo. O uso de tampões de ouvido e a realização de pausas são cuidados recomendados em atividades ou eventos barulhentos. Para além destas recomendações, deve investir em si para minimizar os malefícios da exposição a ambientes ruidosos, como, por exemplo, realizar atividades físicas regulares, promover um sono de qualidade, contactar com ambientes mais silenciosos e com a natureza e apostar em técnicas de relaxamento, como meditação.

“O silêncio não é a ausência de som, mas sim a ausência de ruído.”

Erling Kagge

Esta afirmação convida a uma reflexão ainda mais profunda sobre aprender a desligar-se de um mundo cada vez mais barulhento e procurar a quietude no seu próprio interior, a bem da saúde individual e coletiva. Recomendo a leitura do livro Silêncio na Era do Ruído de Erling Kagge, que considero essencial nesta busca pelo silêncio.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

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