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Do que tens medo?

Há uns anos num projeto em que estive envolvida, um dos encarregados resolveu colocar a cabeça de uma cobra num dos lavatórios da casa de banho feminina. Eu fui a felizarda que descobriu a surpresa. Felizarda porque a cobra já só era uma cabeça enfiada num espeto. Quando a vi, felizmente logo ao abrir a porta, não dei um salto, nem gritei, nem me senti ameaçada ou em perigo. Recuei e achando o cenário infeliz e nojento pedi a um dos colegas que removesse aquele espeto dali (Obrigada Nuno!).

Fui a felizarda porque mais do que o cenário ser desagradável, eu não suporto ver cobras vivas (nem à distância de um ecrã nem protegida pelo vidro de um terrário, aliás, meros movimentos de salamandras por perto, já me fazem reagir: ficar alerta e dar três passos atrás). Também só suporto estar em elevadores, salas de cinemas, aviões, espaços confinados ou espaços com muita gente com muito autocontrolo.

Este autocontrolo implica que mal chegue a qualquer espaço: procure (em silêncio) de imediato as saídas de emergência; procure, em locais abertos com muita gente, o espaço com menos afluência; prefira os lugares da coxia; que me mantenha calada até que controle a respiração e garanta que controlo o possível para poder usufruir do momento, e por fim que me esforce por me distrair até voltar a ter liberdade de movimentos (mesmo que eu não queira ir a nenhum outro lado no momento).

Este estado enquadra-se no medo irracional. O estado de alerta e consciência que emitimos a nós próprios perante imagináveis situações de perigo sem razões concretas para tal. Este estado revela-se em sentimentos de ansiedade, receio, pavor e pânico. É uma reação neurológica e física do nosso corpo, que liberta adrenalina e cortisol, e coloca todas as partes do nosso corpo em estado de emergência para lutar ou fugir da ameaça.

Lutamos ou fugimos da ameaça mediante quem somos e o que experiencíamos. Se já tivermos sido expostos a determinado estímulo semelhante provavelmente teremos a capacidade de discernir mais rapidamente se é um potencial real perigo ou um perigo imaginável e tomar as rédeas da situação dando indicações ao nosso cérebro de que o perigo não existe ou é  controlável.

A última vez que tive um episódio foi à uns meses no apeadeiro da linha vermelha na estação de metro do Saldanha. Estavam demasiadas pessoas e calor na carruagem e eu “acalmei-me” com a justificação de que estava quase a sair, só que quando eu saí, também a maior parte das pessoas saiu, o apeadeiro ficou bloqueado e por breves momentos fiquei desorientada até que consegui reagir (antes de me estatelar no chão) e procurar um sítio para me sentar até que as minhas pernas parassem de tremer, o que só aconteceu quando a multidão desapareceu nas escadas.

A origem dos medos irracionais não é um processo fácil de identificar nem clarificar. No meu caso o medo dos espaços “pequenos” pode advir de um sonho recorrente que tenho, de que estou fechada num espaço pequeno de que não consigo sair, e até o próprio sonho talvez advenha de algo que tenha acontecido numa casa em que vivi até aos 3 anos e que tinha um arrumo com estas características (desconfio que talvez tenha estado lá fechada, voluntária ou involuntariamente). As muitas notícias de ataques e incidentes neste tipo de espaços que nos chegam também contribuem para este meu medo.

O meu medo de cobras advém provavelmente dos exemplares que apareciam no Verão na envolvente da casa dos meus pais e do ar aflito e urgente que os meus pais carregavam nesses momentos, assim como a sachola para as matar, e também das séries de animais selvagens de que o meu pai é fã e a que assistíamos durante o almoço.  Almoçávamos nós e as cobras exibidas na televisão.

O medo irracional advém de pequenas coisas, a maior parte de situações que vivemos na infância: de frases que os nossos pais ou familiares nos disseram, de coisas que ouvimos e não devíamos ter ouvido ou de cenas a que assistimos ou lemos.

Existem inúmeros despoletadores possíveis, não conseguimos controlar e evitá-los todos pelo que devemos rejeitar a ambição de sermos imunes ao medo, temos que aprender a viver com ele, o medo faz de nós quem nós somos.

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