Um Santo Oco e Um Coração Cheio

Há livros que lemos com os olhos. Outros, com a pele. A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, foi um desses para mim — um livro que entrou quieto e ficou reverberando, como uma prece dita baixinho, mas que insiste em ecoar mesmo depois do silêncio.

A história começa com Samuel, um rapaz que atravessa o sertão a pé para encontrar o pai — ou, pelo menos, o que resta dele — e a avó. Chega à cidade de Candeia com os pés feridos, o corpo exausto e uma promessa quebrada dentro do peito. Lá, encontra abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua gigante de santo abandonada. Literalmente. Ele se instala dentro da cabeça do santo. E é dali que começa a ouvir vozes — femininas, murmuradas com a intimidade de quem fala de amor: amores perdidos, amores sonhados, amores nunca correspondidos.

O que poderia soar como alegoria vira matéria viva. Samuel não está apenas ouvindo — ele está sendo atravessado. A cada oração sussurrada, escuta não só a dor das outras, mas também algo da sua própria. O que começa como estranhamento vira missão — não por heroísmo, mas por uma fome antiga de pertencimento.

O livro é mágico, sim — mas não no sentido de encantamento decorativo. É mágico porque restitui ao real sua dimensão simbólica, afetiva, misteriosa. Como se dissesse: “não é preciso entender tudo, basta sentir o que vibra por trás”. E o que vibra aqui é muita coisa: abandono, migração, orfandade, fé, escuta, silêncio. Tudo escrito com uma prosa delicada, precisa, quase oracular.

Soube depois que A Cabeça do Santo nasceu em 2006, quando Socorro Acioli apresentou o projeto na oficina Como Contar um Conto, promovida por Gabriel García Márquez, na Escuela de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, em Cuba. Ele leu a ideia, ouviu Socorro — e o livro seguiu adiante. E ainda vai mais longe: está previsto para ganhar adaptação cinematográfica em 2026.

“Foi a morte que me ensinou. O tempo de sonhar é em cima da terra.”, escreve Acioli, pela boca de um coveiro. E eu, leitora, senti essa frase se alojar em mim como uma revelação. Porque o livro trata disso: de aprender com a ausência, de fazer do vazio um espaço fértil para escutar o que importa. Às vezes, é só quando estamos dentro de uma cabeça oca — despojados, exaustos, desacreditados — que conseguimos, enfim, ouvir.

Ler esse romance é como entrar num espaço sagrado e improvável: uma cabeça vazia de santo, caída no meio do sertão, que virou morada, confissão, oráculo. E, de certo modo, também me instalei ali. Porque saí diferente. Ou talvez apenas mais inteira.

Há livros que passam por nós. A Cabeça do Santo não: ele fica. Como um sussurro que ainda não terminou.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.

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Comments 4
  1. Seu texto como sempre é profundo e delicado. Esse livro está na minha pilha já faz tempo e você fez com ele passe para o topo. Obrigada por compartilhar

    1. Ana querida, que bom que esse texto te inspirou a mudar o livro de posição na eterna pilha “to be read”. Vou adorar conversar sobre ele contigo. Beijoca!

  2. Já fiquei encantado e coloquei na lista de livros para ler.
    Parabéns por essa descrição incrível!

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