O amolador

Ouvia-se ao longe a gaita. Raios do homem que anuncia chuva! Era assim que o tratavam, aquele ser que tudo remediava, que afiava as facas, colocava as varetas nos guarda-chuvas, voltava a dar vida às travessas partidas e ainda conseguia milagres em tantas outras coisas.

Ia de terra em terra, arrastando a sua bicicleta que tinha uma peça especial: uma espécie de moinho com uma pedra que soltava fagulhas, mas dava resultados. Ele dava ao pedal e do estragado saía o arranjado, do velho ficava o novo e do desgosto voltava a alegria.

Que idade teria? Impossível de dizer. Cara muito tisnada pelo sol e pelas intempéries, sulcada de dor e sujidade, mostrava uns dentes ainda bons que funcionavam. A sua voz era estranha e onomatopaica, mas funcional. Amoladóriii!!! Apregoava onde quer que estivesse e soltava sons do seu inseparável instrumento.

Aos poucos chegavam as donas de casa e os desocupados. Eles faziam companhia, mas elas tinham pressa. Era o almoço que necessitava de ser feito, eram os meninos que estavam na escola, eram os maridos que vinham almoçar a casa. Era tudo para ontem. Sim dona, fica já pronto!

Com uma enorme calma, que lhe era costumeira, carregava no pedal e as facas usadas, sem gume, rejuvenesciam voltando a mostrar a sua função, prontas a entrar em acção. Aqui está dona, como nova. Depois as senhoras regateavam o preço, reclamando que era caro. Ele dizia que sim, mas levava sempre a sua avante.

No regresso a casa, elas elogiavam o trabalho do homem e aconselhavam a outras. Que belo trabalho. Já viu isto? Nem se nota que é velha. Pena que só venha cá de quando em vez. Eles, os que ficavam ao pé dele, fumavam um cigarro, olhavam as mulheres que passavam e matavam o tempo como podiam.

Ele continuava com o seu cigarro no canto da boca, apagado há muito, mas que fazia parte do figurino. A sua figura era única e o seu trabalho apreciado. Os pobres davam-lhe valor porque sabiam o que era aproveitar, voltar a usar, mas os ricos nem se apercebiam da sua presença.

Ficava no mesmo local durante um tempo e depois avançava com vista a conseguir mais clientes. Agora era uma travessa velha, da avó, que se tinha partido. Consegue que isto volte a ficar bom? Vamos ver. Deixe comigo. Colocava o boné para o lado, chupava a beata e ligava o pedal. Uns minutos depois a obra estava completa.

A tia Alzira ficou com os olhos marejados de lágrimas. Era a única recordação que tinha daquela que tanto amara. Nem discutiu o preço. Colocou-lhe uma nota na mão e saiu, muito contente, direita a casa. Ele ficou a olhar para ela. Endireitou o boné e voltou a colocar a beata no mesmo sítio.

Ouvia-se o seu som por toda a terra. Mais um grupinho de gente. Eles davam opiniões, elas levavam coisas para arranjar. Olhava para cada um deles e via o seu sustento, o passar do tempo e a velhice que se aproximava. As poucas palavras defendiam-no, mas não evitavam a vida.

Tinha sonhos, como qualquer menino. Ir ver a cidade grande, ter uma casa confortável, uma família e filhos que lhe pulassem para o colo. A guerra roubou-lhe essas ideias. Tudo se foi. Ficou ali, num canto, sem amparo nem consolo. Aprendeu aquele ofício e tornou-se um pastor de ideias.

A início fazia-o com gosto e de muito boa vontade. Depois foi ficando mecanizado, como a vida, aquela madrasta que leva tudo para os seus e não deixa nada para os dos outros. A casa não tinha e ia ficando onde calhasse. A família nunca aconteceu e os filhos só dos outros.

Uma lágrima tentou saltar, mas ele agarrou-a a tempo. Homem tenha cuidado com o que faz. Olhe a fagulha que lhe saltou para o olho. Sorriu. Qual fagulha, qual carapuça. Era a saudade daquilo que nunca aconteceu, duma vida que não viveu, dum sonho que morreu.

Ali estava acabado. Não havia mais nada para fazer. Arrumou os seus parcos pertences e abalou para outras paragens, onde fizesse falta e ainda tivessem notícias para dar e histórias para contar. Agarrou na sua gaita e colocou-a na boca. Tocou. Ninguém. Tocou outra vez. Nada.

Foi-se embora. Empacotou a necessidade com a tristeza, ao lado dos desejos e dos sonhos. Tudo junto e apertado para não ocupar muito espaço. Pegou no guiador e parou. Olhou para longe e o seu cabelo soltou-se, mostrando já uma cãs que se aventuravam. Sentou-se no selim e pedalou. Os olhos encheram-se de água que limpou aquela terra, aquela memória e o preparou para a seguinte. Amoladóríiíí!!!!

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