fbpx
ContosCultura

O outro Eu

Voltei. Temos de falar.

Não fujas mais. Está na hora de ir embora. De trabalhar, de assumir, de ser. Não te deixes entreter com passos nas escadas ou raios que entram no quarto. Não te enganes com afazeres urgentes. Não finjas falta de “alguma coisa” quando é pura e simplesmente preguiça. Inércia. Não te distraias com o choro de um bebé num quarto que não é o teu – não seria assustador se o choro fosse no teu quarto, quando não tens nenhum bebé?

Não, não! Estou a dispersar-me! Estás a dispersar-me!

Pára.

O que é que te pedi?

Faz. Espreguiça-te, sacode-te e faz.

Agora é a hora da diferença. O momento da concentração. O momento do passo. Pequeno ou grande, tanto faz, é o que tu te permitires, é o que conseguires neste momento.

Não culpes o mundo, que mania! Não te deve nada. O mundo não te deve nada, se esperares por ele vais desistir esgotada e inconformada e revoltada e desiludida. As ilusões eram tuas, ninguém tas prometeu. Por isso, se as queres e se precisas delas, faz por merecer. Faz acontecer. A responsabilidade de fazer é tua, a responsabilidade de resultar podes deixar com a sorte, com o destino, e com o teu trabalho. Foge, sai, corre. Pega na caneta. Abre o livro. Aceita a oportunidade. Dá o beijo. Agarra o abraço. Suspira e atira-te. Nem que seja para dentro de ti própria. Talvez me encontres.

Sim, claro que tens de descansar. Mas o cansaço só serve de desculpa às vezes. Tu própria sabes que a maioria delas não é cansaço, é medo ou… É… adivinha a palavra? Procrastinar. Não. Chega. O avião caiu e estavam lá pessoas que iam deixar a vida para amanhã. Faz agora!

Oh! Pareces uma criança. “Não mandas em mim”. Que sentido é que isso faz? Sou tu, claro que mando em ti. Estou a tentar ajudar-te a ser mais, a ser melhor, a ser a pessoa que foste feita para ser, a ser a pessoa que queres ser. Ou isso dizes. Queres mesmo? Ou vais escolher o caminho mais fácil, mais óbvio, menos cansativo?

Okay, então estamos em sintonia. Vamos a isso.

Eu voltei. Vais contar a alguém ou é o nosso segredo? Perfeito. Estás melhor sem os medicamentos, mesmo que eles digam que não deves ouvir “a voz”. Que insulto, chamar-me “a voz”. Eu sou tu. Vamos ser mais. E o primeiro passo para a tua mudança vai ser fugir deste hospital.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.
%d bloggers like this: