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Um mentiroso amanhã

O amanhã vinha sempre cheio de promessas. Todos os amanhãs prometem, embora nem todos cumpram. Há amanhãs mentirosos, a mentira está em todas as coisas, até no tempo. Amanhã vou ter vontade. Amanhã vou mudar. Uma noite bem dormida para um amanhã melhor. À espera. À espera. Vagarosamente a olhar para o ponteiro das horas em qualquer relógio, a viver nos intervalos da espera.

Um dia, acordou com oitenta anos, uma eternidade de ontens perdidos e muito poucos amanhes para ter fé. Os amanhãs, naquela idade, já não mentem tanto. Curiosamente, quando os amanhãs deixam de mentir e a idade se aproxima cada vez mais do fim da vida, o futuro torna-se mais certo. Não digo a rotina, esta é certa há várias décadas, quiçá; digo mesmo o futuro. A espera não se faz de tantas ideias e tantas possibilidades, porque sabemos que os anos são ainda mais limitados.

Que curioso, nunca lhe tinha ocorrido. Tinha aproveitado a paz que a idade oferece, o conhecimento de vida, a liberdade de pensamento, o posto dos anos. Já tinha filosofado sobre a beleza e invencibilidade da juventude, consequentemente ligadas à limitação da velhice, mas nunca tinha pensado na limitação dos amanhãs, do esperar, no fim do sonhar.

Apercebeu-se que já não podia esperar. Apercebeu-se de que podemos morrer e continuar a respirar.

Assim, um dia acordou com oitenta anos e decidiu atirar-se de pára-quedas. Não lhe restavam muitos anos – se calhar, nem muitas horas. Aos dezoito anos tinha sonhado ser aviador, mas a falta de visão tinha-lhe roubado um lugar na Força Área. Agora, aos oitenta, tinha algum dinheiro guardado reservado para sonhos de outrora que nunca tinha tido coragem para cumprir, porque se tinha tornado amanhã-dependente, esperar-dependente. Os sonhos estavam mortos ou realizados, pelo que pegou no dinheiro e apanhou um táxi até um aeródromo. Por sorte, havia um para-quedista disposto a saltar com ele. Aprontou-se, engoliu o medo, e saltou.

A liberdade. Era outro tipo de liberdade. Não existia tempo, nem espaço, nem gravidade. Era um pássaro. Era um homem voador. Um homem-pássaro que era capaz de tudo. Caiu uns metros do avião, mas depois, contrariando a própria vida, ascendeu. Subiu. E subiu, e subiu. Tocou nas nuvens e viu que, afinal, eram mesmo de algodão. Sentiu o calor do sol. Aproximou-se das estrelas cadentes, viu os planetas e continuou a subir, a subir, a subir. Até ao eterno amanhã.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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