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Nós somos os esquecidos

Às vezes acordas confusa. Custa até perceberes que não estás mais em casa, que estás num lar. Um lar. Não é triste? Quando vamos para um lar, sabemos que é a paragem final, que dali só saímos para o cemitério. Eu nunca quis que fosses para um lar, sempre sonhei contigo numa bela praia a aproveitar a tua velhice e a recordar-me, a recordar todos os bons momentos que passámos e a sorrir. No Verão, os nossos netos iriam visitar-te e serias feliz, completa, encontrarias o significado de viver.

Olhas em redor. Tomas os comprimidos que te dão “Vá, Dona Eugénia, tem que tomar, este é para o coração”, comes a comida que te servem “Tem que comer a açorda toda”, descansas quando te mandam “Hora de ir pra cama, dona Eugénia!”. Muitas vezes não percebes o que se passa, os dias vão-se arrastando na tua solidão, e sentes-te numa espera contínua. Por uma visita. Por uma lembrança. Por um milagre. Pela morte.

De vez em quando vês uma cara que é quase familiar e sorris. É uma enfermeira, uma auxiliar, mas na tua cabeça é outra pessoa. Não estás demente, não; apenas confusa. É a idade, a idade maltrata-nos dessa maneira, acaba com o nosso corpo e despoja-nos das nossas memórias. São muitas pequenas mortes antes da grande morte. Bom, há os sortudos que conseguem aproveitar completamente a velhice, a idade, a família, e parece-lhes até que é o melhor tempo das vidas deles. Outros estão piores que nós, estão num lar onde os maltratam, ou numa casa abandonados, a viver na imundice. Mas isso não faz de nós os sortudos, pois não? Nós não somos os sortudos, os vivos, os acompanhados. Nós todos somos os mortos antes de morrer, os esquecidos, os abandonados.

Entra uma cara conhecida. Tens a certeza que é ela, que finalmente te veio ver! Tu sabias, sabias que o coração dela não resistiria, que tinha de te ver, que não te podia simplesmente esquecer. Afinal, és mãe dela! Sorris e abres os braços.

“Simone!” dizes, com lágrimas a cairem-te pela face. Finalmente, sentes uma vitória.

Mas ela olha-te confusa, como se não te conhecesse. Sorri, envergonhada.

“Oh, dona Eugénia, não, lamento” a cara de pena da auxiliar destrói o teu sonho. “Não é a sua filha”.

As palavras fatais. Não é ela. De novo, não é ela. Essa tua mente velha e cansada, essa tua memória quase apagada voltou a enganar-te.

Sorris para a rapariga assustada: “Claro que não, querida, desculpa. É a velhice!”, brincas. A auxiliar toca-te no ombro, aperta-te a pele idosa, massacrada pela vida, tentando consolar-te. Enganaste-te. A rapariga sorri-te, com pena – odiamos a pena, não odiamos? – e parte, vai fazer voluntariado, vai visitar o seu parente, vai à sua vida.

E tu ficas sozinha, de novo. Esperando. Confusa. Esquecida.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

2 Comentários

  1. Es cierto… claro que conheço casos de uma velhice óptima, rodeada de netos e família. Mas a maioria é mesmo sinónimo de solidão, até de abandono. Dá medo envelhecer assim..

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