É a vida

A marcha apressada, a corrida desenfreada e ridiculamente desequilibrada. Uma mala na mão a ser arrastada como um peso morto e incómodo do qual não nos podemos separar. Na outra mão o cinto das calças. Não houve tempo para o colocar de novo onde fazia falta, depois de cumpridos os requisitos de segurança. Ele estava em cima da hora marcada. Corria o mais que podia mas as calças sem cinto descaiam a faziam-no abrandar. Outros olhavam-no sem saberem se dele haviam de rir ou simplesmente o ignorar. Era mais um que atrasado num aeroporto.

A porta de embarque por fim avista-se aos seus olhos lacrimantes sem poderem respirar. O avião estava estacionado, a manga ainda colocada com sinais de movimento no seu interior. Duas fardas em manequins de carne e osso permaneciam expostas em frente à porta. Falavam algo imperceptível e sem a mínima importância. Sorriram e preparam-se para receber o descomposto e ofegante último passageiro.

Sem desenharem qualquer forma de sorriso nos lábios, apenas o olharam e afirmaram “a porta de embarque está fechada”. Incrédulo, olhou para eles, para o avião ainda em silêncio e a manga a ele encostada. Apontou e perguntou, balbuciou, “mas… ainda faltam 12 minutos para a hora…”, o seu bilhete diz que tem de chegar até 15 minutos antes”, respondeu um dos manequins. A mesma expressão estampada no rosto, “…mas… o avião está ali… a manga está encostada, a porta está aberta…”. “É a vida!”

Perante esta afirmação, a expressão dele alterou-se. A fadiga passou a raiva, a respiração ofegante avermelhou-se de labaredas pontiagudas presas à língua por um único e fino fio de racionalidade. Afastou-se ao ver que os manequins voltaram-se um para o outro e retomaram a conversa inócua que haviam interrompido. De um modo estranho parecia que ninguém chegará uns instantes atrasados, que ali não estava um cliente a necessitar de esclarecimentos, a precisar de ajuda. Gélida distância criou-se e tocou-o ferindo-o com raiva, que aliou instintivamente à frustração e incredulidade.

Afastou-se um pouco e recompôs-se. Colocou o cinto e subiu a calças. Ajeitou a camisa e limpou a testa. Cerrou os punhos ao longo do corpo, força estendida a acumular-se no interior. A mala estável, os pés em fúria a marcarem o chão partindo ladrilhos, qual touro preparado para investir. Direcção projectada, plano de acção nem por isso. Começou a correr, a gritar filhos de alguém que para ali não era chamado. A mão esquerda arrastando a mala de novo sem peso, o braço direito levantando-se. A incredulidade transfere-se para outros. Os manequins olham surpresos, têm tempo para o temor e perceber que algo nunca acontecido lhes vai acontecer. Mas não têm tempo para reagir e sentem num mesmo instante um braço estendido a derrubá-los violentamente. O agressor já está na manga do avião a gritar para alguém com ares de mecânico, “não feche a porta!” Mas já era tarde. Meio segundo depois a porta fechou e o alvoroço revirou aquela manga de embarque.

Ele lá acalmou. Não teve outro remédio quando se viu a ser arrastado pela polícia do aeroporto. Teve cuidado em não pisar o sangue junto da porta de embarque. Um manequim era assistido inconsciente levando leves chapadas no rosto e água sob a cabeça. O outro rastejava procurando alguns dentes que ainda lhe faltavam. Olhou o seu agressor e perguntou, “és doido? O que foi isto?”

A resposta foi sumindo à medida que o via a afastar-se, “FOI A VIDA, C#R@%H*!”

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Comments 1
  1. Senti o cansaço da corrida, a frustação da chegada, a fúria a crescer, a raiva a instalar-se e a explosão que em sonhos ocorreu, mas que na realidade devia ter acontecido naquela porta de embarque!

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    D.

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