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Luto

O luto é uma coisa feia e nojenta, com garras e dentes que se agarra a quem perde um ser que ama. Torce a alma, com sofreguidão, até que o corpo cede e solta umas lágrimas ou um grito tão mudo, que não se cala.

Resta a ausência e a imensa saudade, o vazio que enche tanto que parece querer rebentar. A seguir vem a pergunta, aquela pergunta que nunca poderá ter a resposta certa, porquê?

Não é fácil falar sobre o luto, afinal de quantos lutos são? Sobre uma dor que se estranha, entranha e estilhaça o coração. A morte é o fim, mas a memória é um alívio para recordar. Assim sendo, o pico que arrasta a alma é contínuo e muito irritante; não para.

Fica um lugar sem dono, na mesa de todos os dias, um casaco que já não é vestido, um riso que se calou, uma voz que não flutua ou um canto que já se fechou. Ali houve vida e agora não há.

Deixar partir os nossos mortos é uma arte sem dom específico. São nossos e a dor de lhes dar o sim para não mais voltar, tem muitas e tantas reviravoltas e ainda outras voltas, que nenhum baile consegue, com fidelidade, acompanhar.

Resta um amargo terrível que ronda a vida e faz cair, com ou sem qualquer tipo de elegância, as vezes que forem necessárias. É um orifício que cresce, alarga e magoa. Um buraco que suga, impele e atrai. Não se resiste a enlutar.

No entanto não é negativo nem tão somenos exagerado, que se fale de quem já partiu, o tal retalho que não encontra linhas sólidas para ser colocado num lugar de consolo. Por mais tentativas que sejam feitas, as conclusões são as mesmas.

Só se morre quando se deixa de recordar quem existiu, de falar do maravilhoso que aconteceu. A voz, essa arte de comunicar tão preciosa, é o elo de ligação que não se perde. Que delicioso é sentir a presença e o seu dom de ter sido um tesouro na nossa vida.

Há quem diga que não se morre em definitivo, que se aguarda num patamar específico para regressar a um outro corpo e assim continuar uma existência que não se finda.

Outros falam de alma, uma substância etérea que navega em rios de crença e carrega em si a essência que não se perde. Apesar do voo, não é independente pois uma entidade superior, ou maior, tomará para si a escolha.

A vida é sempre um mistério, um desvendar de tanto e muito, um encontro casual entre seres que encontram ligações que se unem com tal firmeza, uma cola especial, que teimam em não se quebrar.

Moléculas com vários tipos de ligações, umas bem sólidas, outras frágeis e ligeiras e outras ainda que se evaporam em sonhos que nunca serão realizáveis.

Água, líquido, transparência, soluto e solução. Aquilo que se verte quando o coração perde o tom de aguentar. Choro. Lágrimas. O luto é o peso que se transporta para sempre. Arde, mas não cura.

Por mais que se tenha o coração roto, cheio de remendos todos transparentes e pouco elásticos, a verdade é que nunca se consegue ter a leveza de aceitar a perda. O vazio aumenta e enche a negritude de sentir.

A dor é a luz que se tapa e esconde, com um tecido bem pesado e que, com a natural passagem dos tempos e das boas memórias, se pode suave e invisível vir a tornar.

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