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Era apenas um papel em branco na cabeceira da cama. Muito pequena, mirrada dos anos e da vida, estava esquecida numa cama de hospital. A cabeça ainda estava boa, o corpo é que não. Abandonada pela vida, esperava que o fim chegasse.

Foi assim que a conheci naquela tarde triste. O sol que brilhava lá fora não era para ela. A incerteza acompanhava a sua vida. Quase nem se via e chorava baixinho para a tirarem dali. Senti um nó na garganta, de impotência e uma dor de raiva contida. Puta de vida que se esgota e rouba a dignidade.

Fui saber mais sobre ela. Pouco apurei. Estava à espera de vaga num qualquer lugar para morrer. Não ali, que a cama era precisa para quem estava doente. Ela apenas estava velha e acabada. Como se fosse uma vulgar folha velha e amarrotada que se deita no caixote do lixo.

Sentei-me ao seu lado. Pediu-me água, mas o que queria era atenção e calor humano. Ali o que havia era azáfama e muita labuta para salvar todos. Nem sempre se consegue. Uma voz muito fraquinha contou-me que tinha vendido jornais pelas ruas de Lisboa. Não tinha ninguém, que a vida lhe sido madrasta e nem filhos conseguiu ter.

Senti-lhe uma pobreza ainda maior, a do afeto e amor. Como se vive uma vida e não se partilha com alguém? Deve ter tido sim, mas talvez não me quisesse contar. Aos poucos ia saindo um rosário de dor e tormenta. Uma voz sumida, como o corpo que estava à minha beira.

Encontrada caída numa qualquer rua da cidade, foi levada para ali para não ser atropelada nem mordida pelos cães vadios, os que fazem das ruas zonas profissionais. Um doce de velhinha. Uma tristeza de existência, uma mágoa que nem me deixava falar.

Tinha nome, mas não dizia, por vergonha. Uma herança que nunca recebeu. Insisti explicando que todos são importantes e que fazem identidades fortes. “Julieta“, disse ela. “Nunca conheci o meu Romeu, nem uns braços que me dessem a força para continuar.

Não soube o que era o amor, mas vagueou entre corpos e uns tantos braços que a largavam por outras, com técnicas mais poderosas e fortes. Abandonada sempre. Sem ninguém. Ali nem nome tinha. Peguei numa caneta e escrevi o seu nome. Talvez tenha ficado borrado, que às vezes solto lágrimas com alguns pensamentos e o dia estava a ficar negro.

Mal se notava o feixe de ossos. Estava saudável. A velhice não é uma doença. Que dor de alma. Consciente da sua situação, pedia que lhe acabassem com o sofrimento. “Para quê continuar a viver? Não tenho nada nem sirvo para nada.

Dito desta forma é duro, como se fosse um murro no estômago que faz curvar. Peguei na sua mão minúscula. Quase que nem a sentia. Sorriu. Naquele instante vi-lhe uma certa alegria nos olhos sem cor. Senti-lhe a vida que teve ou a que desejou. Agora não queria mais. Apenas existia. Que tristeza.

Quis abraçá-la, mas não tinha forças para tanto. Viu o espelho da minha alma. Pediu-me para me baixar e, com uma voz muito sumida, agradeceu-me aqueles momentos. Porra! Que força! Agradecer? Não se devia agradecer ser humano, mas estamos todos tão apressados que nos esquecemos de o ser.

Quando saí fiquei com a sua imagem na mente. Impossível esquecer. Como se gasta a vida que arrasta a essência de cada um? O que se pode fazer para reverter o que não tem retorno? Não podia deixar que ficasse assim.

Uns dias depois foi para outro local bem diferente. Ela sabia que não existem milagres, mas que a boa vontade e a insistência ainda conseguem alguma coisinha de valor. Tinha 95 anos, mas parecia uma entidade mística de milhares de anos. Beleza curiosa, cabelos brancos e sonhos desfeitos.

Vou sempre recordá-la como se fosse uma espécie de anjo que me tocou com a ponta das suas asas. Não a esqueci. Voltei a vê-la. Estava mais contente mesmo sabendo que nada é como se quer nem garantido. Soube que um dia já não mais acordou.

Faria 100 anos no dia 25 de Dezembro. Foi em paz. Que coincidência tão peculiar. Que bela a vida que se reinventa e mostra doçura em cada olhar. Que triste não se ser nada nem ninguém e ainda ter asas para se voar.

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Margarida Vale
A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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