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Invisíveis

Hoje estou cheia de penas. Acordei antes do galo e nem me lembrei que era muito cedo. Saí de casa, antes das 6h30m e reparei que o autocarro vinha cheio de pessoas que estiveram a noite inteira a trabalhar. Sim, há quem o faça. Uma quantidade bastante razoável de invisíveis que fazem tudo funcionar. São os que não aparecem a reclamar, mas têm todo o direito de o fazer. Não há quem se incomode com eles.

No caminho para a padaria, que agora pertence a uma cadeira conhecida de pastelarias, cruzei-me com um senhor, de fato e gravata e a máscara, que deve fazer parte da indumentária pois não a larga. Lançou-me um olhar acusador por eu ir sem o mesmo apetrecho. Pois então. Há que parametrizar todos para que o rebanho siga sem interrupções.

Entrei na padaria, que estava ainda fechada, oficialmente. Desculpei-me, mas as funcionárias, umas queridas, venderam-me o que precisava. Na verdade, alguém trabalhou a noite inteira para que o pão, os bolos e mais o restante não falhem a todos. Estes profissionais são outros invisíveis, mas essenciais, de quem ninguém fala, mas dão o que podem como sabem. Tal como as meninas que me atenderam.

No regresso, o referido senhor ainda estava junto ao carro. Cuspiu para o chão, com som e talvez tenha expelido uma ventosidade de outro local. De seguida, puxou um cigarro e começou a fumar. Além de bonito é muito elegante este tipo de comportamento. É de louvar esta preocupação com a saúde pública. O cuspir e o fumar não importam, até devem ser bem benéficos, apenas o que se mostra serve para os panos esconderem, sabe-se lá o que seja.

Ao chegar à porta de casa, um dos muitos funcionários da expedição postal, diz ao colega que não pode fazer o turno no sábado. Comprou uma máquina e vão instalá-la nesse dia. Sugere que contacte outro colega. O chefe diz-lhe que ele é mais despachado e que há um grande atraso no trabalho pois houve uma falha nos CTT. Mais outra. São eles que colmatam as lacunas, mas quem se importa com isso desde que tudo chegue onde é preciso? A invisibilidade é assim.

A porta da loja está com a luz acesa há muito, talvez desde as quatro ou cinco da manhã. As cartas não chegam a casa por magia, mas sim porque alguém, mais outro invisível, as distribui. Não são as cartas da tia nem os postais da prima, mas, sim, as oficiais. Quando alguém chega ao seu local de trabalho e vê o correio que tem na mesa, tenha em conta que não voou até lá, foi entregue por pessoas que labutam para que os outros continuem a ter o que precisam.

A rua, agora, só tem um sentido, mas há quem teime em estacionar como sempre, em segunda fila. O autocarro, outro invisível que é o motorista, não faz milagres e não pode passar por cima dos veículos que estão mal-arrumados. É um enorme egoísmo e falta de civismo que demonstram pelo seu semelhante. Eu e só eu. Nada mais importa. Mas se for o vizinho a lutar por um naco de pão, uma pessoa que não está bem, são capazes de virar a cara para o lado e fazer de conta que não percebem.

A rua continua a ser a casa de alguns. Já antes não tinham casa, mas o abrigo era sólido, com familiares que, perante um punhado de euros, expulsam os que já não têm préstimo. Dormem em carros abandonados enquanto não são recolhidos. Depois logo se vê. Fazem uns biscates para comer e agradecem a ajuda. E andando de miséria em tristeza, a morte vai apanhá-los, sorrateira, enquanto dormem numa casa abandonada. Invisíveis, até para a família que os descartou.

E assim se constrói uma sociedade, cheia de invisíveis que são essenciais e que deixam a máquina oleada prontinha a funcionar. Estes são apenas alguns dos que nunca falham. Raramente considerados e muito menos enaltecidos. São madrugadores para que os que podem ter todos os confortos, os que ainda estão na cama, possam depois manifestar o seu descontentamento com tudo e mais alguma coisa.

A vida é muito injusta e os que dormem nos bancos dos jardins nem sempre são os pobres e os indigentes, são também os que fazem horas para darem a sua contribuição para dignificar a sociedade, mas essa, que é fina e chique, apenas quer o pequeno-almoço a horas e as nails na hora marcada. Os outros não existem, são invisíveis.

Vou ali num instantinho pintar as beiças de vermelho, para ficar mais linda e depois dizer em alto e bom som que vai ficar tudo bem. Já não se usa este tão hipócrita slogan? Sim? Não? Desde que o eu continue a ser e não queira saber do nós, somos assim, de nariz empinado e ranho a escorrer. E já agora, depois do batom, desenho um risco no olho e de saltos bem altos, para parecer mais magra.

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