Bem-Estar

Incomparavelmente Incomparável

Existe uma tendência natural para se fazerem comparações sobre tudo e eu, como falível que sou, também as faço. Até aqui, tudo dentro da normalidade.

O que verdadeiramente me deixa sem reação é quando alguém pretende comparar o incomparável. O exemplo que me deixa mais estupefacto é quando alguém me diz, como se fosse surpreender-me, que “o avião é o meio de transporte mais seguro do mundo”. E quando pergunto: “comparando com o quê?” Respondem-me: “olha com o automóvel, por exemplo”.

É neste momento que agradeço ao cosmos por não me encontrar em locais altos, caso contrário, era provável que me atirasse mesmo sem paraquedas.

Convém desde já informar que não tenho qualquer formação em engenharia aeronáutica nem tão pouco trabalho em qualquer área relacionada com a aviação. Trata-se somente da opinião de um leigo que se arrepia, quando alguém compara o incomparável.

Claro que não irei elencar tudo o que diferencia um avião de um automóvel, nomeadamente, aquilo que salta à vista até dos mais distraídos, como, por exemplo, o facto de ter asas.

Portanto, vejamos:

– O avião é pilotado por um profissional, altamente especializado, sujeito a avaliações físicas e psicológicas muito exigentes e obrigado a centenas ou milhares de horas de vôo em simuladores antes de mexer num avião.

– Um automóvel pode ser conduzido por animais, anormais e outros tais.

– O avião tem protocolos definidos que têm de ser cumpridos antes do avião levantar vôo, como a avaliação da meteorologia, a pressão dos pneus, o nível de combustível.

– O automóvel é conduzido com os pneus carecas, à mesma velocidade nos dias de chuva que nos dias de calor e, na maioria das vezes, com a luz da reserva acesa.

– O avião tem, no mínimo, um piloto e um co-piloto. Este último monitoriza e auxilia o trabalho do piloto, chamando-o à atenção para coisas tão simples como a altitude ou a velocidade para que o piloto não se distraia ou não se exceda. E piloto principal tem o dever de acatar as instruções dadas pelo colega, excepto em situações delicadas em que o comandante assuma o controlo e a responsabilidade da aeronave.

– No automóvel, o co-piloto é, na maioria das vezes, a esposa que, quando não vai a dormir e a babar-se, alerta o condutor para, por exemplo, o incumprimento dos limites de velocidade, que este ignora com soberba e fanfarronice porque é ele que vai a conduzir. Não raras vezes até responde: “oh, pá, mas tu nem carta tens, vais chatear o Camões, homem”.

– Um avião nunca cai duas vezes pelas mesmas razões. Existem sempre uma série de coisas que ocorrem em simultâneo e que levam à perda de controle da aeronave. Detectadas as falhas pelos peritos, após uma queda ou avaria, e com recurso às caixas negras, sempre que possível, os mesmos são corrigidos por forma a que não ocorram acidentes e/ou incidentes semelhantes.

– No automóvel, existem acidentes todos os dias, pelas mesmas razões e nos mesmos locais. Para quem vive no distrito de Lisboa, por exemplo, quantas vezes por ano ouvimos nas informações de trânsito que existe um acidente no IC19 na curva do palácio?

Bom, atendendo que um ano tem 365 dias, talvez ouçamos isto cerca de 300 dias por ano, mais coisa menos coisa e nem por isso os condutores redobram os cuidados.

Afinal de contas somos sempre mais espertos do que os outros e quem lá se despista é apenas porque é burro!

– Nos aviões, existem hospedeiras de bordo que servem os passageiros.

– Nos automóveis, temos muitas vezes o condutor a passar a chucha ao filho que berra sem parar ou a co-piloto a dar cotoveladas no condutor porque precisa das umas palmadas nos seres demoníacos que vão no banco de trás a esventrarem-se um ao outro numa qualquer tarde de domingo.

– A manutenção técnica de um avião é realizada por vários mecânicos altamente especializados, com inúmeras horas de formação e que trabalham em equipa para minimizar a possibilidade de erro humano.

– O automóvel recebe manutenção na oficina do Zé Careca, que entre uma “jola” e a visão celestial de uma vagina depilada no calendário que está na parede, atamanca aquela peça que, vá-se lá saber porquê, não quer entrar.

E o seu pensamento sofisticado levo-o à conclusão que, “com a graça de Deus, não há-de ser nada. Também sem fatura querem o quê? Dado e arregaçado, não?”.

E se continuasse a lista não mais terminaria.

Além disso, não poderei continuar a escrever. Estive parado no trânsito, mas parece que isto, finalmente, já começou a andar.

Está tudo bem, era só mais um acidente aqui, na curva do palácio em pleno IC19.

Balthasar Sete-Sóis

Balthasar Sete-Sóis, sociólogo, escritor, cronista, radialista e crítico literário encontra nas letras e na comunicação a realização e o sentido para aquilo que o rodeia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: