O que nunca te contaram sobre trabalhar em casa

Uma excelsa senhora inglesa, segurando a chávena de porcelana carregada de chá até à borda, diria “it’s no piece of cake”.

No dia em que decides dar o salto, o mundo afigura-se um parque de diversões gigantesco num dia de sol. Os loopings não te amedrontam, arregaças as mangas e vais à luta com uma garra que nem o Godzilla se atreveria a fazer-te frente.

No entanto, cedo percebes que por entre as fabulosas ideias de negócio intromete-se um móvel carregado de pó onde poderias desenhar a tua estratégia de marketing digital. Dizem os entendidos que deves levar uma tarefa até ao fim. Que raio, tens ali uma pontinha de transtorno obsessivo-compulsivo que te diz que limpar o pó do móvel não leva mais do que cinco minutos.

Estás certa de que, com o tempo, os astros se alinharão e a tua agenda se organizará de acordo com as leis da produtividade. Aprendes, entretanto, que o melhor é pores a roupa na máquina de lavar logo que te levantas para não te atrapalhar o dia. Prontinho. Assim, sim. Fogo nas unhas que hoje é dia de e-mail marketing e a página da tua campanha está a ficar um mimo. Estás a meio daquele parágrafo que vai impulsionar as vendas quando a máquina de lavar roupa, ultra avançada, toca uma melodia que alguém achou que é divertida. Não é.

A caminho da máquina de lavar roupa há um xixi do cachorro. Entre estender a roupa e limpar o xixi são vinte minutinhos, tudo bem. Apesar da calma aparente, sentes um niquinho de mau feitio a despontar do centro do peito para a boca. Feito.  Agora é que é.

Uns ajustes aqui e ali na tua obra de marketing, propostas para enviar e, subitamente, o tempo está curto. Afinal, o propósito de trabalhar em casa também passa pela gestão de horários e ter mais tempo para os filhos. Erro crasso. Assumir esta premissa levou-te a crer que, no mínimo, deves prover um almoço caseiro às crianças e, portanto, ir buscá-las para almoçar.

E mais. Levá-las à entrada, trazê-las à saída. Quando o dia, finalmente, termina, eis o teu saldo produtivo:  levaste as crianças à escola (duas vezes), fizeste as camas, passeaste o cão, deste “só um jeitinho” na casa para manter as coisas organizadas, foste às compras (se estás em casa, no mínimo pão fresco), fizeste o almoço, arrumaste a cozinha, lavaste e estendeste roupa, trouxeste as crianças das escola (duas vezes), limpaste os descuidos do cão bebé, fizeste o jantar, arrumaste a cozinha, e, se for um dia bom, ainda passaste a ferro, tiveste que ir aos correios, ao banco ou a uma consulta. O teu negócio? Ah… bem, pelo menos terminaste a página da campanha.

Os gurus da produtividade ainda te aconselham a juntar algumas outras atividades às 48 horas do teu dia, como leitura, escrita, meditação e exercício físico. Isto, para além dos estudos que atestam que manter a casa organizada e as camas feitas ajuda a impulsionar o teu foco e manter as estratégias de negócio debaixo de olho.

O problema é que, bem vistas as coisas, ao final do dia já não te sobra um olho aberto. Nem criatividade, nem paciência. Juras que o dia seguinte será inteiramente dedicado ao teu projeto profissional, tirando o momento de fazer as camas, levar o cão à rua e tratar das crianças.

Bolas, acabou o papel higiénico!

Pragueja, respira fundo e segue sorrindo por entre as quatro paredes do escritório improvisado. É que um dia os astros alinham-se. Mesmo.

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