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Frágil – Websérie RTP Lab

Para quem ainda não sabe, existe um espaço online recheado de tesourinhos de produção nacional, onde o experimentalismo é a regra. Falo do RTP Lab, um “laboratório” criativo e exclusivamente digital que desde 2017 elege os melhores projetos em ficção, humor e documental a concurso e que financia e consequentemente divulga online, gratuitamente ao público. Só recentemente dei de caras com esta iniciativa pioneira em Portugal, quando me deparei, por acaso, com a mini-série “Frágil”.

Esta série, com realização e argumento por Filipa Mendonça Amaro, que contém apenas 6 episódios com pouco mais que 20 minutos cada, segue as atribulações de três jovens em plena crise de quarto de século, no decorrer de um Verão. São elas Maria Miguel (Catarina Secca Cruz), aspirante a atriz que não consegue passar de papéis insignificantes como a “menina gira” do anúncio de iogurte, Francisca (Rita Rocha Silva), pintora com tendência para o mau génio, que enfrenta um bloqueio artístico e só consegue pintar sob o efeito de drogas, e Sofia (Matilde Jalles), prima de Maria Miguel e recém licenciada, deixa a vida cómoda em Coimbra para trás em busca de uma vida mais aventurosa e interessante em Lisboa.

Juntas, vão tentar ultrapassar as angústias, os problemas financeiros e as dúvidas existenciais típicas de jovens que são millennial, mas poderiam não o ser. A série, qual “tragédia grega”, tenta mostrar através de um misto de comédia e diálogos sérios e introspectivos o que é a realidade contemporânea destas jovens que tentam vingar numa Lisboa cheia de estrangeiros, onde é muito difícil arranjar emprego. Vivem num pequeno e permanentemente desarrumado apartamento em Santos, onde se sentem sufocadas. Maria Miguel está a ponto de desistir da carreira como atriz, Francisca sente-se revoltada por não conseguir viver da sua arte e Sofia acaba uma relação de anos e tem sistemáticos ataques de pânico. Decidem empreender uma road trip rumo ao Norte, para desconectarem da vida real e gravar uma curta metragem amadora. 

A destacar que a série, apesar de contar com um elenco pouco conhecido, exceptuando curtas aparições de alguns nomes mais conhecidos, como Nuno Markl, Tiago Fernandes, Frederico Barata, entre outros, surpreende pela qualidade. Gosto quando se aposta em novas caras, novos rumos. Num país onde tudo parece ser telenovelas, estas mini séries são como uma lufada de ar fresco e dão oportunidade a novos talentos. O argumento está muito bem escrito e as atrizes conseguem carregar o peso da trama, dando vida aos diálogos que são tão relevantes que chego até a me identificar com.

Também eu, tal como elas, tive a minha crise existencial dos 25 anos. O sufoco e a pressão social de ter já a vida resolvida, seja por um emprego estável ou família formada. Aquela constante sensação de que já deveríamos ter feito muito mais na vida. Todos aquelas expectativas que tínhamos em adolescentes, todos os sonhos que ficaram por cumprir. 

É um projecto especial que de verdade entende o que é ser uma jovem mulher moderna neste país. Desenvolve-se organicamente, é real e não tem medo de ferir susceptibilidades. Nota-se que o argumento vem de quem viveu o mesmo. Quando eu tinha 20 e poucos anos tudo era uma tragédia, a mais mínima coisa de extrema importância e as prioridades ainda não as tinha bem definidas. Ansiedade, stress, incerteza profissional, realização pessoal? Sei bem o que é.

Fica então esta série recomendadíssima. Todos os episódios estão já disponíveis na RTP Play. Ficamos a aguardar, talvez, por uma segunda temporada.

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Catarina Loureiro

Autora. Artista. Cismadora. catarinaloureiro.wordpress.com

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