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Agora, Eu

Como é ser mãe de uma criança com síndrome do pânico

Agora eu.  Eu a reconstruir-me, eu a reequilibrar-me, eu a permitir-me sentir.

Durante os últimos meses entrei numa espécie de fusão com o meu filho – de então oito anos – e vivi uma vez mais pendurada por uma linha ténue. Com a respiração suspensa, uma carapaça intransponível e muitas vezes incompreendida. E escrevo “outra vez” porque a ansiedade que me deixou há alguns anos decidiu furtar uma parte de mim quando manchou a infância do meu filho. Minto, não foi ansiedade, foi pânico.

Contudo, não é da perspetiva dele que vos falo hoje. Hoje, falo-vos da minha perspetiva. De como sofri não me permitindo sofrer, desde o dia em que o Alexandre ficou sem o ar que por direito lhe pertence desde que se apresentou ao mundo.

Começou com uma dificuldade em respirar que acreditei ser ansiedade e desvalorizei. Ele só tinha oito anos, uma família estruturada, uma boa interação e aproveitamento escolar, atleta valorizado de hóquei em patins, não passaria de uma crise isolada e motivada, talvez, por cansaço. Mas não foi. No dia seguinte vi-me com o meu filho quase inanimado nos braços, a marcar 112 e a abaná-lo para que ele não adormecesse por temer que, afinal, não fosse ansiedade ou pânico. Talvez o meu filho sem forças e a pedir ajuda estivesse a morrer nos meus braços, talvez eu tivesse sido negligente ao desvalorizar as queixas do dia anterior. Talvez eu estivesse a perdê-lo, ou talvez eu continue a ser ansiosa.

O que se seguiu? Um diagnóstico de ataque de pânico, uma romaria interminável e penosa por consultas das mais variadas especialidades e exames, eu dedicada ao meu filho vinte e quatro horas por dia. Eu a sofrer, sem tempo para perceber que estava a sofrer e a anular-me neste processo atroz.

Durante doze horas, pelo menos, o Alexandre tinha ataques de pânico com intervalos de poucas horas. Eu colada a ele, a respirar com ele, a abraçá-lo, a dizer que vai passar. Eu a não acreditar que aquilo pudesse estar a acontecer e a questionar se alguém nos poderia mostrar a luz. A preocupação de alguns, a desvalorização de outros, o estigma das doenças psiquiátricas, a incredulidade. Uma mãe a considerar recorrer a todo o tipo de ajuda, desde as que apresentam evidências científicas às sobrenaturais. Esta mãe, cética, quase crente numa saída pouco convencional, simplesmente uma saída, não importava qual.

Tantas vezes o sentimento de impotência transformado em esperança. Tantas vezes a falta de vontade de falar, de dar notícias e responder às preocupações dos que me deram a mão para evitar mergulhar  – uma e outra vez  – naquilo em que já estava permanentemente mergulhada. Sem hipótese de emergir para inspirar.

No meio deste processo, tinha marcado o lançamento do meu primeiro livro. O meu filho, que devia estar vaidoso ao pé da mãe, não conseguiu entrar na sala. Ficou com os avós à porta e com ele ficaram o meu coração e os meus olhos, postos no corredor de acesso à sala, à espera que a minha mãe viesse fazer um sinal reconfortante de que estava tudo controlado. Estive rodeada de carinho e não consegui retribuir, não falei com ninguém. Recordo-me de sair da sala e pegar – uma vez mais – no meu filho sem forças, assaltado por mais um ataque de pânico.

Quando percebi que o processo não seria fácil, toda a minha vida mudou. Deixei de trabalhar para acompanhar o Alexandre pelo tempo que fosse necessário, sem qualquer outro tipo de pressão. Já tínhamos o suficiente. Então, o meu filho recolhido no casulo por conselho médico, e eu recolhida com ele, colorimos como nos foi possível os dias cinzentos. Ou tentámos. Às vezes em cores ténues, com abanões fortes. Sem perceber, comecei a compensar-me com comida, afinal, que outros prazeres poderia encontrar fechada em casa e a acalmar uma criança em ansiedade constante? Comida, chocolates, uma vontade de comer voraz e incontrolável. Não saíamos à rua porque o Alexandre desenvolveu simultaneamente agorafobia e claustrofobia, os nossos dias eram passados em casa com as janelas abertas e quase sempre sentados. Era impensável afastar-me dele mais de cinco metros sem que entrasse em pânico. Então… comia. Focada na recuperação do meu filho, passei para vigésimo plano. Por um lado não tinha tempo – ou não queria – parar para pensar, por outro lado era a compensação possível para uma vida de reclusão.

O regresso à escola foi uma vitória, mesmo sabendo que eu tinha que permanecer à porta da escola ou no refeitório para que o meu filho não tivesse nova crise de pânico. Entre livros, escrita e outras distrações, ali ficava por horas, uma manhã ou uma tarde, constantemente vigiada por uma criança que, em estado de alerta, fazia idas frequentes à casa de banho apenas para verificar se a sua âncora – eu – não o teria desiludido com uma fuga à promessa. Horas de olhares pesarosos pousados em mim, de confidências com as auxiliares ao portão, de uma compreensão de todo o corpo docente que nos ajudou a chegar onde estamos hoje.

Atualmente, ambos recuperamos a bom ritmo. Ele com algumas sequelas, eu com mais vinte quilos. Continuo a não querer parar para pensar, porque é na fase de descompressão que – tantas vezes – o céu nos cai em cima. Agarro-me, a cada dia, ao que de positivo este revés me trouxe: a descoberta de novos propósitos, a possibilidade de iniciar projetos que me apaixonam e de estar mais disponível para os meus filhos. Se há duas semanas chorava ao ver-me ao espelho, transformei essas lágrimas em força de vontade. Chorar não emagrece, certo? Então, troquei as lamentações pelo ginásio e a depressão por força de vontade. Já a perder algum peso, vejo com uma enorme felicidade o meu filho a regressar ao pavilhão onde jogou hóquei em patins, a jogar à bola com os amigos na escola, a ser traquina outra vez. Continuamos a trilhar juntos o caminho em direção a uma vida plena do que é realmente importante. Se o meu peso é secundário? Não para alguém que cuidava da saúde, não para uma mãe que durante estes meses foi a sombra e a luz de uma criança em sofrimento extremo.

Chegou a hora de alargar um pouco o cordão e reencontrar a nossa individualidade, mas sempre acompanhados por aqueles que revelaram ser uma seleção natural em todas as áreas das nossas vidas. Não guardo ressentimentos, só agradeço. Evoluímos enquanto família, estabelecemos a nossa hierarquia de prioridades, segurámos alguns e outros nos seguraram. A vida é isto, uma sucessão de bons momentos e infortúnios. Cabe a nós gerir, guardar o positivo, evoluir e continuar caminhando.

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

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