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Eu leio, tu lês, ele lê…basta querer!

Se há coisa que associo à minha infância, com imensa saudade, é o tempo das férias, em que me dedicava à leitura como se não houvesse amanhã.

Na altura, aí pelos 9 ou 10 anos, devorava Enid Blyton (Os Cinco) ao ritmo de 1 livro a cada 2 dias, que a minha avó fez questão de patrocinar. A minha avó era uma leitora intensa e não me lembro de alguma vez me ter dito que não à compra de um livro. No fim do verão, tinha lido a colecção toda. Enquanto as meninas da minha idade sonhavam com a Barbie, eu pedia livros. Dessem-me um livro e eu ficava feliz.

Até ter filhos (e isso parece-me um marco comum), li tudo o que pude, com um critério mais específico que a idade e os gostos vão trazendo. Depois a minha taxa de leitura decresceu a pique e tenho-a retomado, mas nada que se compare com esses maravilhosos tempos. Em miúda, sonhava com um escritório com paredes forradas a livros, construídas ao longo da vida. Depois comecei a perceber que é um sonho difícil de realizar, porque não tenho casa, tempo ou orçamento para tal. Até porque, sejamos sinceros, nem todos os livros nos ficam no coração.

Algumas das pessoas que seguem a minha página confidenciam-me, às vezes, que adoram ler, mas não podem adquirir todos os livros que gostariam, sobretudo, se se for um leitor activo. E de facto parece-me que investir (não considero gastar…) 15 euros num livro que muitas vezes se lê num par de dias, não é financeiramente aconselhável para muitos. Obviamente que os escritores  (e as editoras, algumas das quais onzeneiras) têm direito à recompensa pelo seu trabalho, mas como encontrar um bem comum? Como podemos democratizar o acesso à leitura? Há várias opções:

  1. Bibliotecas municipais – Hoje em dia as bibliotecas são muito mais do que apoios escolares. Não se limitam a guardar tesouros antigos, mas foram reformuladas, apresentando obras recentes e mesmo novas tecnologias, conseguindo no mesmo espaço conciliar bedeteca, videoteca, actividades de grupo e lançamento de obras. E isto mediante adesão, a custo zero ou quase. Requisitando livros, tem-se acesso a uma manancial de obras de todo o género.
  2. Aquisição de livros em segunda mão – Hoje em dia é possível fazê-lo, com livros em bom estado, em feiras, lojas de artigos usados, ou mesmo sites e grupos na Internet. Quando não fazemos questão de guardar aquele livro, porque não foi assim tão especial, podemos vendê-lo, ainda que a preço mais baixo, e reinvestir em outro, mantendo o espaço disponível em casa.
  3. Troca de livros entre amigos, ou pessoas que tenham o mesmo gosto em termos de leituras, com a vantagem de poder vir anexa uma opinião de alguém que consideramos importante.
  4. Bibliotecas comunitárias – conceito relativamente recente, tem vindo a crescer por toda a Europa. Funcionam basicamente em antigas cabines telefónicas, disponíveis a todas as horas, onde qualquer pessoa pode deixar um livro e trazer outro, registando-se como utilizador. “Levar, doar, ler, devolver” é o tema. Aquilo que para nós já não importa, pode ser aquele livro que alguém procura.
  5. Por último, existe a leitura on-line. Não é o mesmo que apreciar a companhia de um livro, o cheiro do seu papel, a quase privacidade de um diálogo entre o escritor e o leitor, mas serve para satisfazer a necessidade de leitura, quando tal não é possível de outra forma. Muitas vezes serve como orientador e revelador de novos autores, o que só por isso já lhe garante o seu mérito.

Leia-se da forma possível, que mais aprouver, aqui ou ali. Leia-se o que nos preenche, o que nos desafia, o que nos consola, o que queremos mudar no mundo. Leiam-se histórias, ficções, mistérios, pedagogias ou filosofias. Que a vontade de ler se renove em cada livro, ou porque foi bom e queremos mais, ou porque nos desmotivou e procuramos melhor, mas que se leia, sempre que possível, como se não houvesse amanhã. Que se leia, como se crianças fôssemos.

Apenas se deveriam ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?

– Franz Kafka

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

One Comment

  1. Quando você vier à Curitiba, vou te mostrar minha biblioteca. Vai matar o desejo de criança, de estar entre livros

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