Este é o meu corpo, de Filipa Melo

Quero começar com o comentário do José Riço Direitinho para a revista Ler:

«Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam. Os livros nem tanto. O da Filipa, é. Mas esses são também os livros que vão ficando.»

É um livro violento, sim. Não, não violento – cru. É um livro muito cru e numa ou duas descrições deixou-me enjoada, mesmo. É raro acontecer e olhem que leio muitos policiais e a imaginação não me poupa! No entanto, com este livro, senti uma realidade que tocava e arrepiava a pele. Talvez por ser a nossa realidade, passada em Portugal, com lugares que conhecemos, profissões que são as nossas e uma história muito verosímil, daquelas que ouvimos no jornal. Talvez só porque a Filipa Melo tem muito talento.

Na verdade, a história em si é simples, embora complexa. Todas acabam por ser, não é? Uma história é feita de muitas. Neste livro, um corpo é encontrado assassinado. A partir daí, vamos descobrindo a história desse corpo, ora através da autópsia (muito estudada, um livro com muita pesquisa), ora através das pessoas que o rodeiam – amigos, familiares, outras vidas que, sem saber, fazem parte da história.

Não me alongo na sinopse, porque, como disse é simples, e não quero ser spoiler. E embora tenha sido o facto de haver um crime a chamar-me para este livro, é exactamente tudo o resto que o torna especial. É uma reflexão sobre a morte, a vida, o fim, o início, o amor. É uma ode à perda e à solidão. Filipa Melo pegou numa história, que é banal e que pode acontecer todos os dias no nosso país, e tornou-a extraordinária de outra forma que não exagerando ou magicando; através de pensamentos e reflexões sobre a vida, tão diferentes segundo cada personagem, segundo cada condição. Senti que foi um livro bem pensado e está muito bem escrito. Todas as personagens deste livro são pessoas reais, sem nada de particular ou especial que as distinga dos nossos pais, avós, vizinhos, mas reais e únicas e unidas por uma história triste. Parecem profundamente sozinhas, perdidas até, e são esses pensamentos, essa luta interna de que talvez nem se apercebam que tornam o livro muito bonito, cru e incomodativo. Um livro que desassossega, como Saramago teria gostado. Um livro que fica, como observou José Riço Diretinho.

Este foi o primeiro romance da autora, escrito em 2001 – uau, que forma de começar! Espero ler outros dela, mais recentes. De certeza que valem a pena.

 

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Pompeu José: “O poder sobre as artes deve estar em todos nós”

Next Post

O Momento do PSD

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Música.

Num destes dias passei pela praça de Espanha, um pouco antes das 20h, vislumbrando por estes os reflexos e…

A medalha

Era gordo e pequenino. Nunca mais crescia. Tinham-lhe dito que o passaram pela asa da enfusa, quando nasceu e…

After Hours

Um filme original, estranho e bizarro. É assim que defino esta obra de Martin Scorsese, desconhecida para muita…