Desígnios

Certo dia, ouvi dizer que um ser humano, para cumprir a sua missão nesta vida, precisava de ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Ainda hoje me pergunto: e depois? O que acontece logo que tenhamos cumprido tais desígnios?

Resumimos a nossa existência à educação de um filho?

Dedicamos o tempo que nos resta a vender o livro que escrevemos e a regar a árvore que plantámos?

Árvore que, após a nossa morte, será destruída para se tornar em papel no livro de outro alguém?

Não sei responder.

Precisamos nós de plantar árvores para que se continuem a escrever livros?

Precisamos de ter filhos para que possamos perpetuar a escrita de livros e a plantação de árvores ou será tudo isto demasiado redutor?

Terei eu sido pai ou apenas gerador de um escritor que plantará, um dia, uma árvore?

Não deveríamos ter apenas como desígnio a nossa felicidade? Ainda que sem filhos, livros ou árvores?

Ficará amputado na sua existência quem não puder ou não quiser cumprir qualquer um destes três desígnios?

Como eu queria saber!

Contudo, devora-me a dúvida de não saber o que surgirá depois.

Agora que estão cumpridos dos terços dos objetivos que justificam a minha existência, assalta-me o medo do porvir vazio a que se pode resumir o tempo de vida que me restar.

Por causa desse medo, vou adiando o plantar da árvore, alimentado a esperança de poder fazê-lo apenas no dia em que sentir, no meu ombro, a mão gélida da morte para me levar.

E se não me for dado tempo para deixar na terra a semente do futuro, partirei desejando que exista no mundo papel suficiente para que as novas gerações continuem a escrever e plantar livros!

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