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The Martian

A dias de estrear nos cinemas, a NASA divulgou uma relevante descoberta sobre a natureza de Marte, afinal existe água salgada por lá. Tal notícia serviu (vamos lá acreditar que tudo não passou de um marketing deveras casual) para colocar The Martian, a mais recente obra de Ridley Scott e o seu regresso à ficção científica desde o muito discutido Prometheus, como um dos filmes mais antecipados e falados desta última temporada.

É certo que esta adaptação do homónimo livro de Andy Weir obteve o apoio da própria instituição espacial para eventuais aconselhamentos sobre os bastidores da mesma (o filme resume a todo um caso de relações públicas) e acesso aos especialistas nas diferentes áreas, para segundo estes, transmitir alguma credibilidade ao aparentemente risível. Produto vendido, ou não, não é por esta coligação existir que à partida devemos condenar The Martian, nesse termo a NASA messiânica de Interstellar é muito mais ofensiva, mas esta venda como produto de luxo desvenda no filme de Scott uma capa de farsa e dominância pelas estatísticas de mercado.

Olhando para o horizonte, Matt Damon tenta procurar a dita água salgada na paisagem marciana.
Olhando para o horizonte, Matt Damon tenta procurar a dita água salgada na paisagem marciana.

Assim seja, vamos por partes, o início de The Martian tinha tudo para nos levar a outras galáxias, metaforicamente falando obviamente, uma variação de Robison Crusoé que corresponde aos desafios do isolamento e da sugestão de impotência humana. Matt Damon é esse naufrago, o astronauta deixado para trás e que a NASA anseia recuperar para ficar bem vista entre a opinião pública e, assim, receberem financiamento para futuras expedições, do que supostamente um todo o rol de solidariedade. E os bastidores são claramente evidentes de tal feito… até certo ponto.

Ponto, esse, em que toda a operação de salvamento converte-se numa espécie de histeria global, limitada e sem asas para eventuais críticas sociais que se poderia (e facilmente) suscitar. É estranho, até porque Ridley Scott conseguiu converter a enésima leitura do conto bíblico (Exodus: Gods and Kings) numa subliminar provocação do foro religioso. Não, em The Martian, o que vemos é um “crowd pleaser” que deixa por terra um desde então sugerido exercício humano que se poderia extrair na solidão da personagem de Damon. Munido por uma prestação emotivamente cativante, mas longe de esboçar um perfil psicológico concebível para todo aquele cenário. Em certos momentos, chegamos a sentir a falta de uma bola de volei alcunhada de Wilson.

Depois de O Resgate do Soldado Ryan, Interstellar e agora The Martian, Hollywood gasta "rios" de dinheiro para salvara Matt Damon!
Depois de O Resgate do Soldado Ryan, Interstellar e agora The Martian, está visto que Hollywood gasta “rios” de dinheiro para salvar Matt Damon!

Porém, Ridley Scott, um cineasta que sempre defendeu a adulteração do enredo em prol da viabilidade comercial, está-se pouco “borrifando” para ensaios humanistas e de exploração metafísica (ou astrofísica), tal tarefa ficou entregue a Kubrick e os tempos de Alien e Blade Runner já vão ao tempo. A palavra aqui é… chineses… mais uma vez, chamados repentinamente para o serviço, como se um doce para as bilheteiras do Oriente se tratasse, e novamente sob um tratamento descartável e sem qualquer utilidade para a narrativa exposta. Já que se falava em coligação, porque não a Rússia, visto que foi um dos primeiros rivais espaciais dos EUA? Os interesses políticos e financeiros falam mais alto, é evidente.

O resto da produção, para além de sequências mirabolantes e de difíceis digestão (mesmo com a intervenção de um especialista qualquer da NASA a argumentar a veracidade dos gestos), ainda temos à mercê um conjunto ainda mais indigesto de personagens descartáveis (e desta vez a culpa não é mais dos chineses). Sob o pretexto de elenco de luxo, The Martian é tão prestável na sua “capacidade” de criação de personagens, que temos à nossa mercê um Donald Glover, pitoresco o suficiente para integrar numa qualquer comédia destinada a adolescentes. Agora sim, alguém tenha a decência de explicar a credibilidade disto! Um perfeito produto de venda fácil!

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Hugo Gomes

Jornalista freelancer e crítico de cinema registado na Online Film Critics Society, dos EUA. Começou o seu percurso ao escrever no blog "Cinematograficamente Falando", acabando por colaborar nos sites C7nema, Kerodicas e Repórter Sombra, e ainda na Nisimazine, a publicação oficial da NISI MASA - European Network of Young Cinema. Nesse âmbito ainda frequentou o workshop de crítica de cinema em San Sebastian, também cedido pela NISI Masa, e completou o curso livre de "Ensaio Audiovisual e a Crítica de Cinema como Prática Criativa" da Faculdade de Ciências Sociais e Humana das Universidade Nova de Lisboa. Foi um dos programadores da edição de 2015 do FEST: Festival de Novos Realizadores de Espinho, e actualmente cobre uma vasta gama de festivais, quer nacionais, quer internacionais (Cannes, San Sebastian).

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