Amar deserto – parte II

Mais uma manhã inclemente de forte ardor do sol ainda mal nascido. Janel e Vino saíram da sua pequena casa e deslocaram-se ao antigo cemitério abandonado. Das pessoas que ali descansavam a eternidade, apenas uma tinha quem dela se lembrasse. O velho Roy resistiu o tempo que lhe foi pedido até aquele casal de jovens ali chegar. Eles honraram a sua vida e restauraram o seu trabalho. Mas Janel e Vino não eram felizes e Roy sentiu a dor deles quando naquela manhã o foram visitar, dez anos depois de chegarem. E de ele partir.

Uma breve oração e as mãos dele e dela soltaram-se com o suor. Caminharam durante um curto silêncio até encontrarem a rotina. Despediram-se ele a caminho café, ela da recepção do motel ali mesmo ao lado. Mas nessa manhã, Vino despediu-se beijando carinhosamente a testa de Janel. Na nostalgia que os assomou, Vino procurou com um beijo a amada que com ele ali chegou. Ela parou e ficou a ver Vino a afastar-se esperando ver o seu amado de quem prometeu jamais se separar.

Já o sol clamava o seu poder em pleno quando Janel se sobressaltou com um ruído que quase esquecera. Em frente aos vidros da recepção, um carro pisava lentamente a terra quente até se imobilizar numa nuvem de vapor branco. Um homem saiu e depressa abriu o capot do motor libertando nova nuvem. Olhou em redor e viu Janel que o observava. Entrou na recepção.

– Boa tarde, minha senhora, ou bom dia. Aqui perco um pouco a noção do tempo.

– É normal, acontece-me isso a toda a hora. Seja boa dia.

– Não deve ser fácil passar aqui os dias sozinha.

– O meu marido está ali no café, em frente à bomba de gasolina.

– Mas está aqui só, e eu olho para si e vejo-a solitária. – Janel intimidou-se.

– Não me conhece.

– Tem razão, sra. Janel. Desculpe. Vou procurar o seu marido para me ajudar com o carro.

Janel viu-o sair e só depois percebeu que não lhe havia dito o seu nome. Ou será que sim? Acometeu-se em dúvidas residuais tentando não lhes dar importância. Mais importante era ter falado com outra pessoa, alguém que não conhecia. Recordou-se que havia um mundo e nele uma vida que o deserto e os anos passados ajudaram a esquecer. Na estranheza dos seus pensamentos sentiu-se confortável.

O homem entrou no café e pouco depois saiu com Vino. Janel observou-os debruçados sobre o carro. Falavam mas ela não os ouvia. Depois de algum tempo e de algumas vãs tentativas, ouviu-se o carro a pegar e os homens a festejarem como se amigos de longa data fossem. Regressaram ao café.

A noite já convidava o sol a descansar quando o homem retirou uma mala do carro e regressou à recepção do motel.

– Vou precisar de um quarto para esta noite.

– Claro. Faz bem em descansar. Tem aqui a chave, logo a primeira cabana. Está pronta para si.

– Não precisa da minha identificação ou do meu cartão de crédito?

– Amanhã tratamos desses assuntos. Não é que vá fugir daqui durante a noite, mesmo com o carro arranjado.

– Obrigado pela simpatia. – Disse o homem debruçando-se sobre o balcão. Aproximou-se dela e sussurrou-lhe ao ouvido. – Sabe onde estarei, Janel, se se sentir só…

Janel estarreceu. O homem saiu sem ela conseguir reagir.

Nessa noite, enquanto jantavam Vino percebeu o desconforto de Janel. Procurou-lhe palavras mas ela escondeu-se atrás do raro hóspede que tinham nessa noite. Sorriram com a situação. Em silêncio olharam-se e perceberam que há muito não falavam tanto. Naqueles sorrisos Jena inquietou-se e Vino adormeceu. Ela não soube dormir nessa noite. Pensou no que o homem lhe dissera, tamanho aforo ali com o marido ao lado a convidá-la para se deitar com ele. Imaginou o que aconteceria, sentir coisas que há muito não sentia mas procurou uma razão para o fazer e deteve-se. Relembrou aquelas palavras que o homem lhe disse, “se se sentir só” e tentou perceber como se sentia. Nesse momento despertou. Percebeu que há muito tempo não pensava em si, em como se sentia, no que queria e desejava, em quem amava. Olhou para Vino adormecido e deitou-se encostando-se a ele tanto quanto conseguiu. Vino acordou e sentiu o calor da sua amada, o seu coração a bater alto e um sorriso no escuro. Virou-se e beijaram-se. Despiram-se e amaram-se.

O raiar da manhã surgiu com uma nova luz dourada. Iluminou um casal que pela primeira vez em muito tempo não quis deixar o cenário de paixão e afecto em que transformaram o seu leito. Juntos saíram de casa e sorridentes fizeram o curto caminho de todas as manhãs. Não se separaram. Ela seguiu com Vino para o café e lá preparou o pequeno-almoço para o seu hóspede. Depois ele seguiu Janel para o motel ali mesmo lado.

Viram o carro do homem e a luz do sol a subir no céu nele reflectida. Bateram à porta e não obtiveram resposta. Deveria estar a dormir e não insistiram. Distraíram-se juntos na recepção até estranharem o avanço do dia sem sinal do hóspede. De novo bateram à porta e de novo o silêncio foi a resposta. Experimentaram o manípulo da porta. Estava destrancada e abriram. Lá dentro nenhum sinal de vida, nenhuma alma, ninguém. Estranharam e olharam-se, regressaram à recepção para ligar para a polícia, a única lógica visível significava um homem a pé pelo deserto. Significava uma morte. Junto ao telefone estava agora algum dinheiro e a factura do quarto que ela não chegara a fazer, no canto uma assinatura redonda que eles reconheceram. Procuram a escritura da casa que o velho Roy lhes dera há dez anos atrás.

A assinatura era igual.

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