Desconhecido Nesta Morada

Um pequeno livro, epistolar, escrito em 1938, que antecipou (talvez seja mais preciso dizer “acompanhou”) a ascensão do nazismo através do crescimento do antissemitismo.

O livro de Kathrine Kressmann Taylor foi um sucesso, pela simplicidade com que conseguiu expor um terror em ebulição, quando não havia ainda explodido em toda a sua maldade. Se o livro tivesse sido escrito depois de 45, seria fácil construir a evolução da relação entre dois amigos e parceiros de negócios, à luz de tudo o que se conheceria; mas um ano antes do inicio da guerra, e antes do holocausto, por mais profundas que fossem as trevas em que a Alemanha vinha a cair, havia esperança.

Max e Martin são sócios de uma galeria de arte nos Estados Unidos. Em 1932, Martin regressa à Alemanha, enquanto Max, judeu, permanece na América, a gerir o negócio de ambos. O que acompanhamos são (apenas) as cartas trocadas entre os dois, e é através delas, e da progressiva mudança de tom nos escritos de Martin, que nos vamos apercebendo de como é possível a transformação do/no mal.

Está lá tudo: o preconceito, o inimigo externo, a destruição dos laços, a cegueira, numa escalada que, passando pela total pulverização da empatia, somente deixa de pé a loucura assente no dogma.

A explicação da feitura do livro é essencial para o enriquecer, tal como o enredo que, sendo muito mais do que aquilo que expus acima, deixo a sua descoberta a quem tenha a curiosidade de o ler (uma ou duas horas são suficientes). Não obstante, o trajecto feito pela relação entre Max e Martin é também um testemunho de como nenhuma amizade é à prova de bala (ou de preconceito, ou do que quer que seja), sendo necessário alimentá-la continuamente para que continue não só viva, como saudável.

Comprei o livro com uns vouchers recebidos no aniversário, fazendo esta obra parte de um conjunto que tinha em vista (um ou dois ficam para o Natal), e li-o quase na integra enquanto, com uma sidra, um pires de tremoços e o Tejo à beira da esplanada no final de tarde de uma sexta-feira, aguardava pelos convidados para o meu jantar de anos. Quase desejei (quase – não cheguei a desejar mesmo a sério) que os primeiros amigos a aparecer se atrasassem mais um pouco para eu continuar, e eventualmente terminar a leitura. Assim não aconteceu, e ainda bem.

Era dia para festejar a vida, mais um ano de vida, e se bem que sejamos mais humanos, no sentido grandioso do conceito, ao conhecermos, compreendermos e mergulharmos, com todas as distâncias, nas atrocidades da História (discordo frontalmente do positivismo onde só interessa o que nos faz sorrir – a vida é tanto mais), também temos, sob pena de sermos sugados para sofrimentos que, além de alheios, nada podemos fazer para os remediar, que encontrar os espaços para sorrir, celebrar, abraçar, conviver.

Celebrar um aniversário, com amigos ou família, traz-nos essa lembrança, a de que na vida nada é garantido e festejá-la, festejar mais um ano, é quase uma obrigação. Pode ser numa mesa cheia, num pequeno grupo, a dois ou até sozinho, mas celebrar.

Desconhecido Nesta Morada (só no último parágrafo escrevi o título do livro), à sua maneira, traz-nos também essa lembrança, a da importância de valorizar aquilo que temos.

PS: Ao pesquisar uma imagem para este artigo (estava longe de casa quando o escrevi e não consegui fotografar o meu exemplar), deparei-me com a peça de teatro, em cena no Teatro do Bairro em Setembro de 2022. Cheguei tarde. Contudo, mais do que nunca, esta peça (e mesmo o livro), não ficaria nada mal no programa escolar do 3.º ciclo ou do secundário. Para promover o debate numa espécie de jogo do “descubra as diferenças”, diferenças essas que dariam para toda uma dissertação – entre a década de 30 e a actual, entre os judeus de então e os de hoje, etc…

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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