Com a Mão na Consciência

Depois de umas semanas de pausa, é tempo de voltar às nossas Pedras da Calçada e, acredito, não há momento mais acertado para o fazer do que este.

O mundo acordou, no dia de ontem, com imagens chocantes e revoltantes da realidade aqui mesmo ao nosso lado, na Turquia, imagens duras que nos deixam o estômago apertado e que, a meu ver, nos devem fazer questionar o que andamos a fazer ao nosso mundo e até quando vamos manter a mesma postura.

Nas últimas semanas, inúmeras notícias têm-nos trazido a situação angustiante dos refugiados sírios e afegãos, na tentativa de fugirem das guerras que os rodeiam e terem apenas uma simples oportunidade de poderem viver. No seu desespero, colocam-se perante situações impensáveis e são, muitos deles, enganados por gente que apenas vive da ganância e que, a troco do pouco dinheiro que esta gente tem, prometerem-lhes serem trazidos para a Europa, local que vêem como uma espécie de terra de oportunidades.

O resultado é o que temos visto, incontáveis mortes de pessoas inocentes, de seres humanos que, como eu ou qualquer um dos que lê esta crónica, apenas quer viver a sua vida e ter uma oportunidade de ser feliz e livre. Alguns, como os que as últimas imagens nos têm mostrado, são apenas crianças, que nem sequer têm a noção completa do que se passa, que nem sequer qualquer oportunidade terão de crescer, estudar e trazer ao mundo as suas capacidades e os seus dons.

Digo, muitas vezes, que precisamos de aprender a ser humanos, e isso é o que cada uma das situações que estamos a viver nos está a solicitar. Os olhos apontam-se para a Europa e para a, muitas vezes, gritante incapacidade do Velho Continente responder rapidamente a crises humanitárias, fruto duma estrutura burocrática e muito pouco agilizada, fruto também de velhos egos que não se desvinculam dos nacionalismos para estender a mão aos povos que os rodeiam. Durante décadas, pensámos ser uns privilegiados, com crescimento e desenvolvimento económico, sabedoria e conhecimento, quase um pilar de um suposto primeiro mundo, mas os últimos anos e a dificuldade que temos tido em gerir crises económicas, sociais e, acima de tudo, de valores, têm-nos relegado a bater com os joelhos no chão e a compreender que não somos mais do que ninguém.

Os olhos apontam-se para a Europa, dizia, mas a realidade é que a Síria, o Afeganistão e tantos outros casos de onde milhares de pessoas tentam sair e de onde vêem a Europa como uma tábua de salvação, não é apenas um problema do Velho Continente. É um problema do ser humano. É um problema de todo o mundo.

Em Abril deste ano, perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, Angelina Jolie alertou para o caso da Síria, da crise dos refugiados, apontou a possibilidade do que hoje é uma realidade. No entanto, tal como a Europa, as Nações Unidas são um conjunto de países com egos e interesses, burocracias e política, que antes de pensarem nos problemas dos que habitam as tais nações, equacionam o que podem ganhar ou perder com isso.

O mundo agoniza com os inúmeros pontos de conflito e guerra, de fome e desespero, de doença e morte. Está na altura de, verdadeiramente, o mundo inteiro colocar a sua mão na consciência e compreender que tais situações apenas continuam a acontecer pela doentia obsessão que temos, enquanto humanidade, com o poder, o dinheiro, o estilo de vida, e economia, as taxas de juro e tantos e tantos outros focos de um mundo material que nos fazem esquecer que, no fim de tudo, isto não é nada mais do que o que deixamos, pois o corpo, os bens, não vão connosco para lado nenhum. No fim de tudo, somos tanto, ou se calhar menos, quanto aquele corpo, daquela criança, de barriga para baixo, sem vida, à espera duma última morada e o que deixamos, na verdade, é o que fizemos uns pelos outros, é o que criámos, é a felicidade e o amor que cultivámos.

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