Cemitério de sonhos

As pessoas passavam por aquela estrada e nem paravam para olhar. Todos os que eram dali da zona sabiam o que era; os que não eram da zona nunca sonhariam. Ninguém se preocupava, ou não queria preocupar, com o que lá existia.

O cemitério dos sonhos. O Cemitério de Sonhos, onde tudo o que já desejámos e perdemos está enterrado.

Eu estava a beber um bagaço numa pequena tasca na rua principal. Eram dez da noite, e tinha viajado cinco horas de Lisboa até àquela terrinha para pedir ao amor da minha vida que voltasse para mim. Levava um plano, um sonho e um anel de noivado. Assim que lhe bati à porta e levei a mão ao bolso, ela começou a chorar e largou a “bomba”: tinha-me deixado porque estava grávida de outro homem. Por isso, depois de sentir o mundo desabar negro em cima de mim, virei-lhe costas. E decidi fazer boas memórias naquela terra maldita que tinha parido aquela mulher do demónio que me fez apaixonar por ela só para me partir o coração. Decidi, naturalmente, que as boas memórias eram sinónimo de uma bebedeira descomunal. Beber até me esquecer dela, repeti para mim. Claro que no esquecimento está muita lembrança, e que na lembrança é impossível um esquecimento total, um apagar total como o que eu desejava naquela noite. E estava quase a conseguir quando ele se aproximou de mim com esta conversa.

“Já passaste lá na rua do cemitério, moço?” perguntou, com um sotaque cerrado.

Eu tinha chegado umas horas antes, e pretendia ir-me embora umas horas depois. Olhei para ele, só para me certificar que estava a falar comigo. Olhei de volta para o copo e bebi: não lhe quis dar conversa.

“Devias passar, não encontras em lado nenhum!” pelo hálito já estava um pouco alcoolizado. Tal como eu, constatei quando senti as pernas pesadas.

“Larga lá o rapaz, senta-te aqui ao pé de mim” gritou-lhe o dono.

Ele, o bêbedo que não parava de me querer levar para o cemitério, pôs o braço sobre os meus ombro, e puxou-me.

“Apareceu lá uma campa nova, hoje” disse-me ele, quase ao ouvido. “Cá para mim, pertence-te.”

Olhei para ele, os nossos narizes quase se tocavam e senti-me desconfortável. Rodei o braço e abanei o ombro para o obrigar a afastar-se de mim.

“Claro que há vários espalhados por todo o país, o meu pai dizia-me que cada bairro tem um. Não sei é se todos foram encontrados, ou se nas grandes cidades há lugar para estas verdades que incomodam. Se calhar até já conheces algum…” Olhou para mim, e abanou a cabeça, como se fosse inconcebível.

“Ó, Jacinto, deixa-o lá! Anda cá, que vou ligar para a tua filha te vir buscar.”

O tal Jacinto afastou-se, olhando para trás e sorrindo-me, um sorriso praticamente desdentado que, à luz do bagaço me pareceu assustadoramente misterioso. Havia algo de conhecedor e de profundamente em paz no seu rosto. Como se fosse um sábio, um anjo, ou Deus.

Ri-me perante a ideia de Deus estar bêbedo numa tasca do fim do mundo e decidir meter conversa comigo.

Levantei-me, deixei algum dinheiro em cima da mesa, e saí. Tinha o carro estacionado ali perto, mas não tinha sono. Decidi vaguear pelas ruas, para apanhar um pouco de ar e ver se me sentia melhor. O álcool estava a dar-me cabo do estômago. Não sabia para onde ir, nem pensei em ir a lado nenhum; não conhecia aquele sítio e só queria andar para me sentir um pouco melhor.

Até que cheguei ao Cemitério dos Sonhos.

Nunca o tinha visto, mas soube imediatamente o que era. Deviam ser quase onze da noite, e eu devia era voltar para o carro e descansar, para no dia a seguir partir logo de madrugada. Mas algo me impedia, sentia-me preso àquele lugar, àqueles portões anónimos, àquele muro igual a tantos muros que eu conhecia. Talvez fosse da bebedeira, mas senti que tinha de entrar. Não sabia como; os muros eram altos, os portões também, mas sem esforço de repente estava dentro. As grades dos portões eram largas e eu era magrinho, magoei-me no peito e num ombro, mas consegui passar entre duas barras de ferro que pareciam mais abertas. Como se estivessem à minha espera. Afastei essa ideia; não tinha era havido muito esforço para fechar aquele sítio; também, o que é que fugiria? Cadáveres? Ou sonhos mortos, se o mito fosse verdade?

Parecia um cemitério normal. Cheio de campas, velho, frio, solitário. Andei durante alguns momentos, e vi nomes com inscrições. Não conseguia ler, a noite estava escura e os meus olhos estavam turvos, mas havia nomes. Isso queria dizer o quê? Que o Jacinto, ou lá como se chamava o homem, era maluco e me tinha enganado! Como é que eu podia ser tão parvo?

Quando a vi.

Uma campa com terra nova, um mármore brilhante. A única ali, pelo menos ali perto. Seria aquela? Aproximei-me e abaixei-me. Cheirava a terra molhada, a relva, a orvalho. A frio e a medo. Não conseguia ler bem o nome. Tirei o telemóvel do bolso e tentei iluminar as letras. Li. Li de novo, porque pensei que não tinha lido bem. Senti-me a tremer. Senti que a força me era drenada, sugada, que havia mil olhos a observar-me. Senti-me morto. Pensei que nunca me conseguiria levantar. Mas quando me apercebi, já estava dentro do carro.

Arranquei.

Nunca mais voltei àquela terra e nunca mais quis falar do Cemitério de Sonhos. Não sei o que vi naquela noite; não sei, não me quero lembrar nem falar disso. Bom, sei, mas não quero lembrar-me, por isso é como se me tivesse esquecido. Apaguei. Quero apagar.

Mas que existe um cemitério de sonhos, isso, por mais que eu queria esquecer, sei que é tão certo como respirar. Tão certo como pôr a mão ao peito, e sentir os batimentos do meu coração.

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