“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre”. Paulo Freire
APRENDER é um ato contínuo. Aprendemos ao longo da vida, independentemente da idade ou do contexto.
Provavelmente, quando se fala em aprendizagem (ato ou efeito de aprender[1]), a maioria das pessoas tende a considerar que a mesma se faz num contexto formal, numa instituição de ensino, com direito ao respetivo diploma e reconhecimento de qualificações. Referimo-nos, assim, ao sistema de ensino instituído em cada país, estruturado em escolas públicas e privadas onde são lecionados os programas oficiais para os diferentes níveis de ensino. Reportamo-nos, pois, ao contexto de sala de aula. Existem, também, outras entidades formadoras qualificadas que se enquadram no ensino formal e que conferem grau escolar.
Num outro contexto, existem iniciativas de aprendizagem estruturadas e com objetivos definidos, como seminários e oficinas, entre outros, mas que não conferem uma certificação formal. Nesses casos, estamos perante uma educação não formal.
Por fim, e talvez o conceito que menos relacionamos com um contexto de conhecimento, deparamo-nos com a educação informal. Esta é a aprendizagem que realizamos de forma relativamente espontânea, em contextos informais que vão deste o ambiente de trabalho, passando pela nossa própria casa e família ou por instituições como museus. São aprendizagens não estruturadas, desenvolvidas no âmbito relacionado com socialização do indivíduo.[2]
Se relativamente aos dois primeiros tipos não temos grandes dúvidas sobre a retenção efetiva de conhecimento, as questões sobre a aprendizagem informal são inúmeras. Será que aprendemos a ler um livro? E quando vamos a um museu? Há informação a reter quando vemos um filme ou um documentário? E quando debatemos um tema com um amigo? Aprendemos quando fazemos formação informal no nosso local de trabalho? E quando exploramos as potencialidades do telemóvel que acabámos de comprar?
Para todas estas questões a resposta é SIM! Aliás, são aprendizagens que podem trazer-nos algumas competências pessoais e profissionais importantes. A grande questão é como otimizar e valorizar essas aprendizagens, torná-las importantes aos olhos de quem as tem, mas também aos olhos da sociedade. Tendencialmente a escola, ou um empregador, não valoriza uma determinada competência a não ser que a mesma tenha um certificado que a comprove.
Ficamos, pois, perante um dilema: valorizar apenas o diploma ou confiar nas capacidades e competências do “saber fazer”? Então, se em determinados contextos é imprescindível a existência de um diploma, porque não certifica-lo?

Na verdade, por toda a Europa existem programas de reconhecimento de competências, que permitem aos cidadãos “identificar, documentar, avaliar e certificar as respetivas competências”, partindo para uma “qualificação parcial ou completa, o que pode melhorar as perspetivas no mercado de trabalho e abrir novas oportunidades profissionais.”[3] Outras vantagens, para além de permitir melhores condições de acesso à formação contínua, é o reforço da confiança e autoestima, bem como o reforço da inclusão social. É o reconhecimento das competências de alguém que, por um determinado motivo, não atingiu determinado degrau do percurso escolar.
São muitas as polémicas em redor deste género de programas. Aliás, o caso português, com o Programa Novas Oportunidades, não foi exceção. Anterior ao governo socialista de José Sócrates e sobrevivente a ele, permitiu a muitos portugueses obter a certificação do 9º e do 12º ano de escolaridade.[4] Caraterizado por muitos como um programa de baixos critérios e pautado pelo facilitismo, a verdade é que levou muitos cidadãos a refletir sobre as suas competências e capacidades.
Controvérsias à parte, é importante sublinhar que toda a aprendizagem é válida e todos temos o direito de aprender, independentemente do contexto em que o fazemos.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.
[1] https://dicionario.priberam.org/aprendizagem
[2] Sobre os conceitos de educação formal, educação não formal e educação informal consultar https://ened-portugal.pt/pt/ambitos-de-acao e https://inee.org/pt/eie-glossary/educacao-informal
[3] https://europass.europa.eu/pt/validation-non-formal-and-informal-learning
[4] Sobre o programa Novas Oportunidades e os Centros Qualifica consultar https://pt.wikipedia.org/wiki/Novas_Oportunidades e https://www.qualifica.gov.pt/#/