Num mundo tecnológico ditado por algoritmos, será que temos mesmo liberdade de pensamento? Será que a tecnologia nos permite mesmo pensar e nos deixa escolher o que queremos fazer?
Quando se fala de tecnologia, inevitavelmente, fala-se de Inteligência Artificial. Porque os algoritmos, camuflados entre os desejos e vontades do comum internauta, oferece-lhes aquilo que a sua razão não sabe se quer, já que estão imbuídos de matemática pura, raciocínio lógico e procedimentos precisos. É aqui que se revela o pouco ou tanto que é a inteligência do ser humano, capaz de nos levar à lua, ao mesmo tempo que constrói armas de destruição maciças. Será que a inteligência, aquilo que nos faz ser diferente dos restantes animais é, efectivamente, o que nos distingue e permite ter a liberdade de pensamento?
Todos sabem o impacto que a propoganda e o marketing têm nas vidas do cidadão consumidor. A influência que os media e as revistas provocam na auto-estima e o poder que têm sobre as crianças e adolescentes, e, inclusivé, a forma como promovem o seu negócio, limitando qualquer sujeito, independentemente do estado de adultez é, uma faceta, já não assim tão nova, com consequências negativas que todos conhecem. O marketing digital foi-se infiltrando como vírus e, tudo o que é negativo, se reproduz em segundos, infectando os pensamentos e o livre-arbítrio. Verdade se diga, que o que é bom, benévolo e com intenção de promover o sentido crítico perde-se por entre os algoritmos tão populares da excessiva “publicidade”, “likes” e visualizações, que abundam os meandros duma tecnologia que se desvirtua continuamente.
A tecnologia, por si só, não é um bicho papão e os algoritmos um veneno que sai da sua boca. Como em tudo ao nosso redor, o que faz com que algo seja bom ou mau, é o uso que lhe é dado. E, a forma como esse algoritmo vai ser apresentado passa pelas decisões daqueles que o desenvolvem, daqueles que o promovem e das escolhas “cegas” que surgem óbvias aos comuns utilizadores. A utilidade e os benefícios são numerosos, pois olhando para qualquer lado, a tecnologia vive ao nosso redor. Os obstáculos são o que a fazem ser ambígua, ao mesmo tempo que vicia aquele que se conecta a ela. Deixámos de ser autonómos para passarmos a ser autómatos.
Interessante é desconstruir o termo tecnologia, que deriva do “grego “τέχνη”: “técnica, arte, ofício” e “-λογία”:[2] “estudo”) é o conjunto de processos e habilidades usados na produção de bens ou serviços, ou na realização de objetivos, como em investigações científicas. Isso também pode ser embutido em máquinas para permitir a operação destas sem conhecimento detalhado do funcionamento. Sistema tecnológico (ou computacional) que através do input de dados, faz à análise destes e, então produz um resultado.” in wikipédia
Porém, quando se refere a este saber, imediatamente, se reporta ao mundo digital, aos computadores e ao campo da informática. Uma limitação, tendo em conta que se aliarmos ao saber a arte de fazer, o indivíduo que está por detrás e as une, terá de possuir uma inteligência e criatividade que o distinguirá de outro, para criar algo funcional e útil, estando indirectamente ligado à própria tecnologia. Sujeito e tecnologia de mãos dadas estão e, ligado a essa tecnologia, resta acrescentar que, por mais que uma ideia seja boa, a mesma pode-se transformar em má, se usada em mãos alheias. A conjuntura actual do mundo e o modo como a globalização tecnológica gira em torno das grandes potências, servindo-se da mesma para próprio proveito, pode assustar ou repudiar. Porém, assiste-se, cada vez mais, a uma normalização da maldade e, o Paradoxo da Tolerância mais enraizado em cada um de nós. Este Parodoxo é um dos três paradoxos apontados pelo filósofo da ciência Karl Popper no seu livro The Open Society and Its Enemies. Refere-se à ideia de que, no ambiente social, a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância, permitindo tolerar o que é intolerável. Situação que se vê crescer, camufladamente, no Estado Político e Social.
Desta forma, a abundância de pessoas que se denominam de influencers, coachers do desenvolvimento pessoal e afins, dotados de positivismo extremista que usam da tecnologia para chegar ao pensamento de qualquer um; cidadãos que, de pensamento são livres, porém, cuja liberdade de escolha muito pouco lhes cabe; uma consequência desse Paradoxo, sobrecarregando o algoritmo de “péssimas influências”, que, à distância de um clique são de imediato disponibilizados. Para não esquecer da crueldade de mentes vis que vão mais além e, numa posição de extremismo, oprimem liberdades, instigam violências, promovem inércias mentais e passividade ao povo, invectiva contra país ou alguém.
Resta dizer que algoritmo nada tem a ver com o dito, que é muito mais do que à primeira vista parece, e cuja comum compreensão humana pouco consegue entender.
A tecnologia não é má por si só. Muito pelo contrário, o avanço tecnológico e a IA têm sido uma forte aliada nas mais diversas necessidades. O que a faz ser aquilo em que se pode tornar, pertence ao domínio que lhe é dado e a quem está por detrás da sua supervisão.
Como em tudo o que existe, pode ser destruído pelo uso que se lhe dá, ficando dúbia a liberdade de escolha ou pensamento.
Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico