A representação do corpo humano na arte variou ao longo dos tempos associada aos conceitos de dualidade: matéria/espírito e corpo/alma que definiram o pensamento da civilização ocidental.
As primeiras representações do corpo na arte são as Vénus paleolíticas, ligadas ao culto da fertilidade. Os gregos expressaram os seus ideais filosóficos e matemáticos nas representações do corpo, valorizando proporção, equilíbrio e ordem. Na arte medieval, influenciada pelo Cristianismo, o corpo foi retratado de modo a enfatizar a pureza espiritual em detrimento da beleza física.
A arte moderna veio abolir a representação do corpo regulamentada por cânones estéticos. O corpo humano revela-se ao espetador tal como ele é visto através das lentes do artista, resultando em imagens subjetivas e provocatórias – “Les Demoiselles d’Avignon” pintado por Picasso em 1907, marca esse ponto de rutura. [Picasso museum Barcelona | Official website]
A arte feminista teve também um papel fundamental na revolução que deu uma reviravolta à representação do corpo na arte.
O grupo ativista nova-iorquino Guerrilla Girls denunciou, na década de 1980 num dos seus cartazes clássicos: “Menos de 4% dos artistas da coleção de arte moderna do Metropolitan Museum (NY) são mulheres, mas 76% dos nus são femininos”.
De facto, ao longo da História da arte o corpo feminino tinha sido sempre o mais representado, refletindo os padrões artísticos de uma sociedade patriarcal. Salvo raras exceções, na arte as mulheres ocuparam principalmente o papel de modelos e posaram para que os artistas-homens fizessem do corpo delas, sobretudo, a imagem da beleza, do erotismo ou da maternidade.
A arte feita por mulheres abriu portas a um processo de empoderamento feminino do corpo, mas também à desconstrução da representação do corpo ideal.
Uma das pioneiras neste processo foi Frida Khalo, artista mexicana cuja obra trouxe, de forma visceral, uma abordagem honesta e sem filtros à representação do corpo feminino, desafiando as convenções e celebrando a individualidade.
Frida subverteu as representações femininas tradicionais nos seus auto-retratos. Neles, ela não se apresenta como uma modelo para ser contemplada. Com buço e uma farfalhuda sobrancelha única, ela desafia o observador com o seu look ambíguo.

Frida fez mais do que desconstruir a imagem tradicional do corpo feminino: ela retratou na tela o seu corpo doente, além das lágrimas e do sangue resultantes dos seus abortos. Ela adotou uma identidade feminina plena, livre dos estereótipos de perfeição. Por essa razão, muitas mulheres gostam de exibir o seu icónico retrato estampado em t-shirts ou em sacos de pano, como um manifesto.
Frida Kahlo fez da representação do corpo, na sua obra pictórica, uma ferramenta de reivindicação da diversidade a todos os níveis, física, sexual e étnica.
Viva Frida!
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico