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Um lugar à sombra

Há dias de sol que enegrecem com a sombra dos outros.

A luz vermelha do semáforo acendeu-se, cinco carros à nossa frente. Para nos fazer parar na estrada e na consciência. Manhã quente de domingo, no movimentado cruzamento. Gente bem-disposta que se dirigia para a praia, almoços em família, passeios com amigos.  

Quando o vi, já o homem vinha pelo meio das duas filas. A canadiana numa mão, o anacrónico púcaro de esmalte na outra. As janelas fechavam-se à sua proximidade. Os ocupantes dos veículos olhavam em frente ou conversavam entre si, constrangidos. Nós também. Eu também. Não dar esmola parecia-me obsceno. Dá-la seria igual. Sobretudo, porque, não fora o gesto da mão que pedia e o olhar que se fazia humilde e envergonhado, o homem poderia ser um de nós. Limpo, calças de ganga, camisa azul escura, camisola amarela e quispo azul, a contrastar com o calor.

É o Gabi. Dorme debaixo do viaduto. Uma bela receção às portas da cidade. Ele e outros dois têm poiso ali. Este é o mais recente. Deixou a mulher por outra. Endividou-se, ela pô-lo na rua, perdeu o emprego. Deu nisto.

Isto é a nova geração de mendigos.

A mendicidade, (re)conhecida como tal, esteve ligada à religião, durante séculos, talvez por Cristo se ter disfarçado de pedinte para avaliar a bondade alheia. Outrora, tanto na ruralidade, como no mundo citadino, os mendigos eram “bem tratados”, autorizados e considerados necessários. Para além de regularem a estratificação social, tinham um peso simbólico no imaginário popular. A esmola decorria de um sistema de prestação e contraprestação. Gestos e palavras estereotipados. O mendigo expunha as suas deformações físicas, estendia a mão, gemia e pedia Uma esmolinha pela alminha de quem lá tem. O dador recebia, como contrapartida, a promessa de uma prece, uma intervenção junto do divino. Quem dá aos pobres empresta a Deus, assim se pensava.

No entanto, no século XIX, o discurso legislativo já distinguia a falsa mendicidade da exercida por carência. O Código Penal de 1852 considerava a primeira como crime de vadiagem, punível com a pena de pisão até seis meses, com obrigatoriedade de trabalho. No Estado Novo, o decreto-lei n.º 30389, de 20 de Abril de 1940, determinava «que em todas as cidades sedes de distrito» fossem criados, na dependência dos comandos distritais da Polícia de Segurança Pública, albergues destinados a prevenir e a reprimir a mendicidade em todo o país. O mesmo que pena de prisão.

Se Albert Cossery fosse português, talvez tivesse sido preso, por ter escrito Mendigos e altivos, em 1955, cujo protagonista, um ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, se torna mendigo por decisão própria.

Hoje, o sem-abrigo já não é o nómada, o vagabundo que percorria cidade e campo. Tornou-se sedentário. (Sobre)vive num lugar estabelecido, lar de cartão, protegendo os pequenos tesouros que arrasta em sacos ou carrinhos de hipermercado. Não palreia ladainhas religiosas, porque o seu papel social mudou. Nada tem a oferecer ao dador da esmola. O mendigo de hoje já foi cada um de nós que tem acesso à leitura desta crónica. Teve casa, família, amigos e trabalho. Usou perfume, relógio no pulso, saltos altos, camisa, gravata. Já teve muito. Teve azares. Tomou decisões erradas. Que importa? A condição humana deveria ser a nossa prioridade.

Vamo-nos redimindo com alguns casos de sucesso, como o do escritor Fernando Casimiro, que viveu muitos anos em situação de sem-abrigo, e já publicou dois livros: Provavelmente Venci e Isto é poesia?

Naquele dia, o creme de marisco soube-me a azedo. Teria o Gabi almoçado?

Eu. Pecadora me confesso. Virei o rosto, não voltei lá.

Não há mendigo que não prefira a miséria à morte.

Machado de Assis

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

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Comments 24
  1. Paula, que belíssimo artigo. Uma triste realidade e muito interessante na sua exposição.
    Quantas vezes passo por eles, e ainda que saiba que uma pequena esmola não fará a diferença, e nalguns casos sabemos o destino da mesma, não fico bem comigo se na minha bolsa não
    procurar seja o que fôr. Muito obrigada por partilhares os teus conhecimentos e pela coragem de escreveres sobre assunto tão esquecido.

  2. Que belíssimo artigo. Uma triste realidade e muito interessante na sua exposição.
    Quantas vezes passo por eles, e ainda que saiba que uma pequena esmola não fará a diferença, e nalguns casos sabemos o destino da mesma, não fico bem comigo se na minha bolsa não
    procurar seja o que fôr. Muito obrigada por partilhares os teus conhecimentos e pela coragem de escreveres sobre assunto tão esquecido.

  3. Duro, como os nossos olhos por vezes não querem ver a desgraça alheia, já que a solução nos escapa dos dedos, individualmente.

  4. Visão mais que perfeita sobre os mendigos, que hoje em dia convivem lado a lado conosco na cidade. 👏👏

      1. Amargo, doloroso e, infelizmente, intemporal. Obrigada por pores o dedo na ferida. E tão bem escrito.

  5. Conheço a autora. Supera em muito tudo o que neste breve apontamento a descreve.
    Se o sonho existe ele foi materializado pelas ” asas ” persistentes , firmes , imagéticas da escritora.
    É uma mulher única e quem passa pela sua vida fica mais enriquecida, mais autêntica , com vontade de fazer os seus primeiros ” batismos de voo” no mundo da escrita e do pensamento literário.
    Paula Campos , sou tua fã número um , dois , três , não importa.
    Sinto uma enorme gratidão por teres entrado na minha vida porque cresci , sou maior .

    Deixo aqui um apelo para que te leiam, pois sairão de alma cheia e prazer pelo conteúdo das tuas crónicas e obra literária. .

  6. Um tema bastante pertinente e que deveria ser mais vezes abordado.
    É importante tornar visível a realidade e o quotidiano das pessoas em situação de sem-abrigo, que inferniza quem não quer ver ou saber.
    É um assunto que tem sido debatido na atualidade, com novas respostas sociais como Housin Fist, mas onde ainda há muito a fazer.

  7. Infelizmente, esta é uma realidade que tem vindo a aumentar bastante, devido à emigração. Visitar as ruas do Porto à noite deixa-nos sem chão. Será muito difícil combater este flagelo pois eles não têm casa, não têm trabalho, e alguns, não falam português. Felizmente que há muito serviço de voluntariado que, pelo menos, garante uma refeição quente diária e agasalhos. Este já não é um problema só dos nossos, é um problema global, o mundo está complicado, a desigualdade social dos países e as guerras são fatores causadores desta realidade.
    Parabéns Paula Campos pela excelente crónica.

  8. O que revi, as memórias que regressaram e as vezes que nos sentimos menos humanos pelo simples desviar do olhar. A maior das desculpas é o ser para a bebida e para a droga mas muitas vezes a realidade é outra completamente diferente.
    Obrigada por este pedaço de visão Paula. Sem mais palavras.

  9. Que belíssimo texto sobre uma dura realidade, muito presente nas nossas cidades. Trabalhei cinco anos de perto com pessoas em situação de sem-abrigo, alguns com adição associada. Conheci pessoas incríveis, com quem era possível estabelecer conversas enriquecedoras. Foi, sem dúvida, uma experiência marcante, mas da qual guardo saudades e o carinho de alguns com quem ainda me vou cruzando pela rua.

  10. A Ana Paula Campos é uma “jóia” no espaço literário e da pintura, que faz o favor de ser minha Amiga.
    E, para além disso, constitui um notável exemplo de resiliência.
    Obrigado por ser quem é!

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