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Ajuda para ajudar

Este ano, mais uma vez, fui voluntária no peditório da Liga Portuguesa Contra O Cancro. Claro que é sempre uma lição de sociologia da mais alta estirpe aliada, como se espera, a psicologia de algibeira. O que se ouve é de bradar aos céus e, apesar de não ser nova nestas andanças, ainda me encanto com a estupidez natural do ser humano.

Ser voluntário é dar de si um pouco em versões diversificadas. Tanto pode ser tempo com paciência, ou as duas misturadas, que resultam em trabalho não gratificado, É isso, sem remuneração. Em tempos, quando um jovem estava em demanda de um emprego, sugeriram-lhe que escrevesse no seu currículo que fazia voluntariado. Como era o que se chama um Chico Esperto, veio perguntar-me se pagavam bem nessa “coisa”.

Depois de lhe ter explicado que não recebia dinheiro, ficou muito indignado. Para ele o mundo era a preto e branco, cheio de cores e os limites eram tão largos que a parvoíce e a falta de lucidez, cabiam com fartura naquela cabeça. Não era de admirar já que a sua mãe tinha por hábito telefonar a solicitar serviços a horas pouco próprias. Para ela isso fazia sentido, tal como para o filho insistir que Camões estava apaixonado por Inês de Castro.

Contudo este ano ainda consegui mais cromos para a colecção de perguntas tolas e fora do contexto. Quando abordei as pessoas e lhes perguntei se queriam dar alguma contribuição para a Liga, recebi perguntas incríveis que me deram logo vontade de rir. Entre ” quanto é a cota? ” e ” O que é que sai? “, houve oportunidade para outras variantes. Uma senhora respondeu-me que ia no dia 4 e eu tive que fazer cara de mosca varejeira, como se a parva fosse eu. Talvez seja por continuar a lutar pela vida de milhares de pessoas que, infelizmente, nestes últimos tempos, ficaram esquecidas.

Sei que estas tarefas nunca são fáceis, mas dei o meu tempo e a minha presença. Será pedir muito que haja respeito ou que se pense um pouco antes de abrir a boca e soltar aquelas barbaridades? Ser voluntário é não receber nada em troca, em termos monetários, mas saber que se foi mais uma peça no xadrez da vida de muitos, compensa todas as mazelas psicológicas que possam acontecer. O respeito e a consideração já devem ter saído de moda pois o gozo descarado é muito mais fixe.

Sendo domingo de manhã, o movimento no supermercado era grande. Claro que se tem que avançar, ser assertivo e saber falar com as pessoas. Nestes contextos não se pode estar à espera que as moedas entrem no cofre sem se abeirar de quem entra. Para isso o tom de voz e a linguagem corporal são importantes. Como se espera, as recusas saem logo das bocas que estão cheias de pressa para tratar das suas vidas. É natural. Contudo há quem pare e oiça e, depois de lhes tocar a sério, oferecem o que têm para ajuda de todos.

Uma senhora, muito simpática, confidenciou-me que junta dinheiro o ano inteiro apenas para esta causa. Abriu a carteira e vi-lhe os olhos marejados de lágrimas. À medida que procurava o porta-moedas, as palavras saíam-lhe, um pouco descompassadas. Agora com as máscaras, certas palavras são difíceis de ouvir e a morte nunca tem tempo certo. Tirou uma nota e colocou-a no cofre. Esteve ainda uns minutos a soltar as mágoas e seguiu a sua vida. Li-lhe uma alma muito triste.

Um senhor muito revoltado, contou-me, em breves instantes, a sua vida e o cancro era a presença mais forte nos últimos tempos. Tinha-lhe levado, numa virada, uma filha, a mulher e um sobrinho. Muito direito e firme, devia ter a alma toda torta.  Largou as moedas todas que tinha no cofre e ficou a clamar contra a vida. Olhei para o carro: que vida tão solitária. Há vidas duras e brancas e outras tristes e fechadas. Os poucos minutos que falámos foram o ganho do dia.

A manhã crescia e o movimento do almoço começava a dar sinais de abrandamento. Algumas pessoas conhecidas abordaram-me e deram o seu contributo, outras fizeram de conta que não sabiam quem eu era. Já estava à espera. É natural. Estamos cada vez mais afastados uns dos outros e os últimos anos não foram simpáticos. Aliás, permitiram e incentivaram a tal. Os resultados estão à vista.

Em 2020 morreram 30.168 pessoas de cancro e milhares de consultas e exames ficaram por fazer. Este ano já se mostra bem trágico. Dos meus conhecimentos, já ultrapassam as dezenas em muito, soltando lágrimas, dores e saudades. Quando a doença bate à porta lembram-se de pedir ajuda, mas não entendem que há que cuidar dos jardins, com desvelo, para que as ervas daninhas não os deixem inutilizados.

Aprendo sempre imenso nestas tarefas. Há vidas que precisam de ser acesas e outras que apenas necessitam de uma palavra de conforto. Nota-se que avós e netos são um grupo crescente e ainda bem. Esta troca de conhecimentos é perfeita. Contudo leva-me a pensar se os pais aproveitaram o fim de semana prolongado e usufruíram de momentos a sós ou se são filhos de pais separados e precisam de tempo para se organizar. Crianças são o hoje, o futuro que se cultiva com amor e carinho. Avós, fontes inestimáveis de saberes e de ternuras. A vida é sempre uma surpresa.

Reparei que o cofre estava pesado. Não me pesa na alma, mas, sim, no corpo. Sinto que a tarefa foi bem-sucedida. Ajudar ainda é palavra de ordem. Sem cábula. Não penso que um dia possa precisar. Não se deve usar este cliché.  Apenas se participa se assim se entende. Recordo Kant e o dever. Vejo de forma mais suave. Os mais fortes apoiam os mais fracos.  Uma espécie de mãe e filhos que a vida insiste em relembrar.

Vou para casa com a sensação de dever cumprido. Reparo que as pernas me falham. Foram horas em pé, mas, para ser franca, nem dei por isso. A barriga agora dá horas. Decido que vou descansar. Lembro-me de quem passou um dia nas mesas de voto ou de quem esteve a fazer o recenseamento. Ser pago não justifica a indiferença das pessoas.  Quando lhes aperta sabem como se queixar, mas o que está ao seu alcance, é para virar a cabeça.

Cada vez há menos voluntários. O dinheiro é a cenoura que puxa as pessoas. Estive sozinha e isso não me incomodou. Este é o momento do ano em que se pode ser assertivo e empático para ser visto.  Há quem ajude e continue nos bastidores e depois temos alguns pavões que só aparecem para serem falados. Se motivarem para as acções certas, a sua visibilidade foi positiva, mas se nada acontecer, é sinal de muita futilidade e cabeças ocas. Pela parte que me toca, irei continuar a fazer o que me dá prazer e que tenha uma utilidade maior: oferecer saúde.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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