Hombre Mirando al Sudeste

Terá sido o primeiro filme argentino que vi, por sugestão da Viviane, que lá havia vivido na infância e parte da adolescência. Não era um cinema que me interessasse por demais naquela altura dos vinte e poucos, em que a curiosidade pelo filme americano – o Noir, o Technicolor, a Comédia de costumes – e pelo cinema europeu – muito no início, com O Leopardo ou Cinema Paraíso – explodia pelo espaço que dedicava à 7ª Arte.

Anos mais tarde, já depois de nos termos afastado, o nome do filme continuava a viajar na lembrança e na curiosidade em explorar outras geografias, sublinhado por uma frase que ela repetia como um alerta “Olha, vocês aqui não conhecem, mas o cinema argentino é muito bom.“. Tinha razão.

No tempo do torrent (o streaming não estava ainda sedimentado), em que sacar filmes perfazia o acesso privilegiado a quem queria fugir ao catálogo (melhor depois da chegada do cabo, mas ainda assim, muito limitado) que os canais de TV oferecem, pude finalmente importar (não sem custo, diga-se, dado não ser uma obra por demais partilhada) Hombre Mirando al Sudeste, sem fazer a mínima ideia sobre o que versava.

Posso adiantar algo sobre o filme e as múltiplas portas que ele me abriu, e talvez a descrição remeta para uma outra obra, mais recente, feita um pouco a norte: um homem (Rantes) de meia idade surge num hospital psiquiátrico de Buenos Aires alegando vir de outro planeta. No hospital, o psiquiatra que toma conta do seu caso, um homem desiludido com a vida, vai escrevendo anotações no seu diário, e é através deste que vamos entrando na história de Rantes. Rantes é semelhante aos homens exceptuando a incapacidade de sentir. Mas ajuda quem quer que necessite de auxílio, ao contrário dos humanos (terrestres) que sentem sem se importarem com quem, ao seu lado, passa por dificuldades.

O filme é um poderoso testemunho de humanismo e um exercício profundo de existencialismo, muito mais do que a componente sobrenatural que o enriquece. A certa altura, questionei-me sobre quem estava certo, se nós, se ele, sendo que ficamos na dúvida se nós pertencemos ou não ao “grupo” de Rantes.

Realizado por Eliseo Subiela em 1986, contando com o malogrado Hugo Soto no papel principal, o filme viu surgir outro, K-Pax, realizado quinze anos mais tarde, que chegou a ter uma queixa por plágio, a qual foi posteriormente retirada. As semelhanças são por demais evidentes. Escuso referir qual o melhor.

Foi este filme, não me recordo se devido a uma referência explícita nele contida (já o vi há uns dez/quinze anos) ou à conta de algo lido mais tarde, que me levou a ler A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Talvez por pouca expectativa levar para o filme e partir para a leitura carregadinho dela (depois de um filme destes, o livro tinha que ser genial), não só não encontrei a relação que esperava entre as obras como achei o livro mediano, apesar da ideia fascinante. Contudo, é daqueles livros em que senti claramente ter sido problema meu não ter desfrutado o quanto sinto que ele vale. A reler, sem dúvida.

Hombre Mirando al Sudeste é uma obra maravilhosa, daquelas que passam por nós ao ritmo certo, permitindo-nos viajar pelas questões que nos percorrem sem perder o fio do que acontece na tela ou no ecrã de casa, do lado de lá que também pode ser o nosso, um espaço de reflexão e de entretenimento, oferecendo-nos uma imagem de nós próprios se pudéssemos sair do corpo (e até da alma?) que habitamos e nos fosse dada a oportunidade de nos vermos de fora. Talvez nos surpreendêssemos.

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