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Tecnologia

A perversão das tecnologias invasivas

Acabo de escrever o título deste artigo, comecei exactamente por aí, o que nem sempre acontece, muito pelo contrário. E no seguimento da dúvida que me assiste ao lê-lo, hesito em deixá-lo tal e qual como está. Talvez alguns se recordem da figura da hipálage na conhecidíssima expressão do Eça: Fumava um pensativo cigarro. Assim é também, ainda que inadvertidamente, com este título: invasivos são os utilizadores, não as tecnologias, como é obvio.

Isto para deixar claro que sou uma defensora das tecnologias, embora nem sempre as domine ou as use na sua total amplitude. Sou pela simplificação e facilitismo que estas nos permitem. Já não sou, de todo, defensora do uso intensivo e abusador das mesmas, sobretudo no que se refere a interferir na vida alheia em todo e qualquer momento. Sem necessidade ou urgência, reforço.

Eu explico: a idade já vai pesando, o mesmo não se aplicando ao dinheiro, pelo que não reúno condições para morar no Restelo, mas… ainda assim…

Eu não sei se é da idade ou do mau feito, mas há situações em que tenho uma noção muito clara de espaço próprio, e não se resume aos 2 metros do COVID nem ao metro de espaço de segurança pessoal. Bem mais do que uma questão puramente física, há hábitos que me fazem alguma comichão, e relacionam-se todos com o interferir, a qualquer tempo e sem justificação subjacente, na vida de cada um, porque sim e porque não. Ou, basicamente, só porque me apetece.

O meu filho, adolescente, liga-me algumas vezes por dia. Por um lado sinto-me valorizada, já que os amigos dele tendem ao oposto, mas tenho que reconhecer que, na maioria das vezes não se justifica, ou é pelo menos adiável, podendo esperar pelo retorno a casa, não sendo imprescindível ligar-me em horário laboral. Mas é uma alma em construção, e portanto vou-lhe explicando que nem sempre estamos disponíveis, sobretudo se não é um assunto iminente. Também não o vejo a telefonar, muito pelo contrário, a toda e qualquer hora, para os amigos, com quem, no entanto, é capaz de trocar mensagens até à exaustão ou até ao fim dos dados móveis, como nos carros, o primeiro de dois.. Portanto, o efectuar chamadas telefónicas não é de todo um hábito desta geração, para grande pesar dos avós e demais familiares mais conservadores. Não é, pois, uma questão etária.

Mas então o mistério adensa-se, e foco-me na geração que tem hoje 20/30 anos e usa e abusa das chamadas com câmara, ainda que a trabalho. Talvez eu nos meus 46 anos já não tenha o entendimento necessário para perceber o entusiasmo dum brinquedo, que já nem novo é. Não consigo perceber porque as pessoas ligam, várias vezes e sem pré-aviso, sem saberem se interrompem alguma reunião/conversa/concentração, insistindo até que atendamos, mesmo que seja para colocar uma questão que implicaria duas frases: uma de pergunta, outra de resposta. Ou terei uma voz radiofónica, deve ser isso, calculo.

Com Teams, Zoom, e mais umas quantas aplicações que usamos regularmente em trabalho, para além do email e whatsapp, não vejo necessidade de ter de chegar à fala, muito menos à imagem, na exigência de imediatismo, sem o evidente  teor de urgência ou complexidade. Chego até a ver o assunto na perspectiva umbilical e caprichosa de um: para lá o que estás a fazer, que eu é que sou importante e atende-me já. Sem se faz favor, evidentemente. É sabido que a escrita pode, por vezes, induzir em erros, pela (des) interpretação ou simplesmente pela falta da vírgula no lugar certo. Nem toda  a gente é directa e expressa nos seus propósitos. Claramente que há assuntos que exigem uma atenção imediata e focada, mas não generalizemos  e não banalizemos os esforços, já diz a lei da produtividade.

Seguimos com  os trabalhadores compulsivos, que recebem uma notificação às 3 da manhã, esperada na sua rotina profissional, e muito generosamente resolvem notificar DE IMEDIATO via mensagem de telemóvel os colegas a quem o assunto poderá interessar, eventualmente, às 9 da manhã. Talvez se esquecessem, se não o fizessem?! Se acordas às 3 da manhã com uma mensagem destas,  a culpa é tua, que não desligaste o som, e pensando bem, talvez até mereças o castigo, porque enquanto o teu colega está a trabalhar tu estás a dormir, ou pior, a divertir-te. Não se admite tal falta de compreensão, não estares sempre disponível, até parece que tens vida pessoal ou tens direito ao descanso. Que audácia!

Mas os exemplos não acabam na área profissional. Na vida pessoal/extra-trabalho, há também quem ligue e a qualquer hora. Já me aconteceu quase ter que pedir desculpa porque preciso ir dormir, porque a pessoa se espraia pela conversa como onda em maré enchente, em corriqueiras e voláteis considerações. Recorda-me aquela frase dos donos da casa, quando subtilmente dizem: Maria, vamo-nos deitar para que os convidados possam ir embora… Também já aconteceu ter que me justificar porque tenho que terminar a chamada ao fim de hora e meia de monólogo, porque tenho alguém à espera. Ou, de alguma forma explícita e quase rude,  demonstrar que não é conveniente a altura em que falamos, quando isso é claramente percetível. Ou legitimar o facto de não estar sempre disponível, sem querer ou poder esquecer-me de mim e dos meus.

Isto não faz de ninguém egoísta, quanto muito, faz de alguém usuário do bom senso e respeito pelo espaço do outro. Em duplo sentido, não invado a privacidade alheia, como não permito que invadam a minha, a não ser, evidentemente, que seja algo urgente, importante ou mesmo estonteante como o homem mordeu o cão, como tão sabiamente o Nuno Markl trouxe ao de cima esse princípio do insólito sobre a  vulgaridade.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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