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ContosCultura

A igreja nem estava decorada

Conto

A igreja estava sobrelotada. Muitos velhos, bastantes adultos e pouquíssimas crianças, duas ou três, aguardavam o Padre da comarca. O senhor prior abrira a porta principal horas exageradamente antes da cerimónia fúnebre. Houve quem o visse quando o sol começava a nascer. Os comentários eram audíveis e, em contexto, de muita pouca importância.

Ele observou que alguns participantes do rito religioso estavam sentados, na rua, nos muros que abraçavam e protegiam o templo cristão, outros em pé, alguns no átrio de entrada e mais alguns dispersos, próximos da porta principal e das laterais, enquanto atendiam pela missa de corpo presente.

Seria normal e seria, quase, um dever moral se o silêncio permanecesse como lei naquele local. No entanto, o silêncio como forma de respeito, tristeza e consternação não ocupava a capela. Desde o início da escadaria que dava as boas-vindas aos religiosos até ao cimo do montículo que ostentava a Sé, ouviam-se conversas:

– Era tão boa senhora, apesar de tudo!

– Era tão generosa, tão bondosa!

Comentários:

– Maldita enfermidade!

– Pobre senhora!

Histórias que relembravam:

– Há uns anos, ela ajudou-me. Jamais esquecerei!

– Foi ela que me estendeu a mão quando precisei… Eu queria ajudar, ela não quis.

– Ela afastou todas as pessoas, pobre coitada.

Perguntas curiosas e observações ardilosas:

– Ela não tinha uma sobrinha?

– A sobrinha nem teve a decência de vir ao funeral… Não a vi!

– Não deve ter deixado muitos bens como herança…

E conversas circunstanciais e incongruentes, em amena cavaqueira:

– A rapariga da mercearia está mesmo grávida!

– É verdade que o teu vizinho vai emigrar?

– O meu genro já está a trabalhar, o malandro, até que enfim!

Havia grupos semeados de onde em onde que se comportavam como se estivessem num café ou num reencontro organizado para amigos de longa data. Risos atrevidos ouviam-se. Gargalhadas tímidas percebiam-se. Burburinhos e sussurros eram espalhados pela entrada do santuário.

Ele entra, respeitosamente, através do átrio e rompe para o lugar dos fiéis. O caixão cumprimentava quem entrasse, assim como os olhares interessados pousavam sobre ele. Inspira profunda e disfarçadamente e direcciona-se para junto do presbitério, onde o caixão interditava qualquer avanço para o altar.

A defunta permanecia serena num caixão que aparentava ser confortável. Flores, muitas flores em volta. Coroas e ramos de flores com dedicatórias saudosas e desgostosas, devidamente assinadas, estavam propositadamente visíveis para quem as quisesse ler.

Ele nota a falta de choros e lamúrias. Não havia ninguém que chorasse pelo corpo. Lágrimas sinceras e penosas que acompanham a morte, essas, não chegaram àquela câmara-ardente. Não havia entes queridos para chorar aquele corpo. Não havia entes queridos que fossem ter saudades. Ao que parece, nem a tal sobrinha. Não haveria familiares que colocassem uma fotografia da senhora em alguma prateleira da casa. Não haveria quem lhe acendesse uma vela para iluminar-lhe a alma.

O corpo não tinha ninguém para tais obséquios e recordações pós-fúnebres. O corpo tinha a vila inteira para assistir-lhe ao funeral, porém, se viva, sentir-se-ia sozinha como quando foi os últimos tempos de vida dela.

O Padre chegou. As pessoas levantam-se dos seus bancos da capela, baixam a cabeça em sinal de respeito. A missa começa.O silêncio instala-se. Apenas a voz do Padre faz-se ouvir. O Ato Litúrgico inicia-se com imensas palavras de respeito, agradecimentos, reconhecimentos e gratidão para com o cadáver.

Ele retira-se silenciosamente, acompanhado pelos mesmos olhares curiosos aquando da entrada. Olhares esses mais interessados na saída dele do que com a defunta. Ele sabe que, independentemente de tudo, a senhora, finalmente, descansará em paz. O caixão será fechado para todo o sempre e o cadáver será enterrado perpetuamente.

Enquanto ele aguardava pelo fim da cerimónia, dirige-se para o muro protector, na rua, que continuava a suportar as poucas pessoas, todos homens, que também aguardavam, tanto pelo fim do funeral, assim como pelas suas respectivas esposas.

Sentou-se e olhou em redor. A dor que um funeral costuma carregar não parecia pairar naquelas cabeças que se ocupavam mais de falar da sobrinha e da vida misteriosa e recatada que a senhora tinha. Não precisava de ajudas de quem queria entrar na sua vida para violar a sua tão pacífica intimidade.

Os homens não gostam de se misturar nestas coisas de lágrimas e de lamentos. São mais de fumar cigarros rápidos e de olhar para os rabos das que se afoitaram a usar as saias pretas de outros tempos. Justas e brilhantes, chamavam a atenção deles que colavam os olhos em corpos que ainda tinham muito para oferecer.

A mulher tinha morrido, mas escondia um segredo. Tinha aberto a porta à sobrinha que se abarbatara com tudo como se fosse seu. A princípio pensou que seria por ter um lar onde repousar o corpo e a mente mas, rapidamente, entendeu que não passava de uma vulgar oportunista.

Uma senhora habituada ao silêncio do seu pensamento, sente-se incomodada com o barulho da intromissão. Ser velha é um posto e não uma forma de ser roubada a clarividência e o bom senso. Aos poucos viu quem era a rapariga que se tinha apoderado da sua vida, uma vulgar larápia, sem classe nem nível. Tomou a decisão de imediato.

Uma noite, em que não tinha aproveitado a noite para gastar o que não era seu, tendo preferido ficar em casa, com a sua tia que rezava o terço, “Avé Maria, cheia de graça”, rodando as contas como se estivessem numa maratona religiosa, cansou-se daquela ladainha monótona e foi-se deitar.

Pouco depois, os olhos fecharam-se e o plano era fácil de ser executado. O chá que a tia serviu, seria quase fatal para a sobrinha mas havia que se acautelar, não fossem os resultados saírem menos corretos. A almofada ajudou no que faltava e, num ápice, mesmo com os braços e pernas a se debaterem, quais aranhas loucas, o final foi o esperado.

Lavou a loiça, arrumou-a e voltou ao quarto. Aquele cadáver tinha que sair dali. Com a ajuda de uma serra e de facas japonesas, o corpo foi retalhado como ela fazia aos peixes grandes, antes de serem colocados no tabuleiro de ir ao forno. A limpeza foi eficiente, ou não tivesse ela sido uma especialista no assunto. Nem um leve vestígio do sucedido. O jardim não contava as aventuras vividas.

O que não sabia é que ele, o que dormia com a rapariga há vários meses, viu tudo e, em estado de choque, nem conseguia proferir uma palavra. Como podia uma senhora daquelas, tão beata e doce, ser capaz de tal atitude? O ser humano é um monstro de capa dourada e sorriso singelo.

Na igreja o Padre da comarca iniciava o seu discurso. As nobres qualidades da senhora eram enaltecidas e, enquanto falava alto para convencer o público do que dizia, as cabeças rodavam na esperança de ver chegar a sobrinha há muito desaparecida. Será que tinha existido?

Algumas senhoras, já cansadas da espera, soltavam umas lágrimas que seriam capazes de envergonhar um crocodilo. Fininhas e quentes, desciam pelos rostos cheios de base, deixando ficar um sulco de falsa dor. O calor enchia a igreja e a voz do Padre ecoava nas almas que pairavam em busca de um sentido.

Ele olhava para os maridos. Uns estavam ausentes de mente mas o importante era o convívio. A senhora seria estimada como diziam? Ouviu umas conversas soltas e parece que ajudava quem precisava, resolvia vidas que não deviam existir, dava esperança a moças que não podiam ter filhos sem querer. Sabia como fazer desaparecer o que não interessava. Uma santa, na boca de uns quantos que não estavam dispostos a assumir paternidades ou filhos fora do casamento.

O caixão foi fechado. Algumas mulheres tiveram vontade de lhe deixar ficar o último agradecimento, o prolongamento da sua vida mas a vergonha de serem descobertas nas suas faltas, encolheu-as de sentimentos. A cerimónia foi seca e o sol, muito alto, queimava mais por dentro do que por fora.

À saída juntaram-se todos. Homens e mulheres eram-lhes devedores mas o segredo mantinha-se. O ” boa senhora ” ficou a pairar e a sua morte, assim, suave, durante a noite, foi uma bênção divina. A ausência de sofrimento aliviava as dores da partida. Ia em paz e seguia directamente para o lugar merecido, ao lado de quem sempre defendeu e apoiou.

Antes de descer às profundezas, o Padre voltou a libertar umas palavras de ânimo e de valor, para quem iria entrar no reino dos céus. Respeito e agradecimento mudo pelos bons serviços prestados à comunidade. O peso da consciência calava todos.

Ele assistia como se não estivesse lá. A almofada que ela tinha usado para a sobrinha foi o seu carrasco. Ironia do destino. Quando dormia, com som bem forte de satisfação, ele entrou em casa, pegou no fatal instrumento e, em poucos segundos, o final fez a sua entrada triunfal. Era velha. Morreu durante o sono. Sozinha. Pobre senhora que ajudava quem precisava. A sobrinha era uma ingrata.

A cerimónia termina e a vida continua. Ele desaparece com a sua dor e sem ser notado. Todos regressam à vida. Um dia, talvez, quem ficar com a casa, venha a descobrir o que ali aconteceu. O Padre fecha a igreja e o mundo continua a ser o mesmo.

Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal. Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever, servindo-me muitas vezes como catarse. Sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e indiscutivelmente contra o Novo Acordo Ortográfico. Com o primeiro conto, meu primogénito, publicado na revista virtual Pulp Fiction, dois contos editados nas Antologias "À Margem da Sanidade" e "O Penhasco", outro em "Assassinas", prevalece sempre o mesmo género literário: policial, thriller, suspense e uma pitada de terror psicológico. Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: "Criatividade é inteligência divertindo-se."

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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