A parábola da dor

Havia um homem que tinha uma tarefa diária. A sua obrigação era transportar 50 pedras, de um determinado local para outro, sem as deixar cair. De início ficou um pouco assustado, mas pensou e chegou à conclusão de que conseguiria. Como era inexperiente, no primeiro dia estava extenuado! Não fez um plano e não percebeu como devia aplicar a sua força.

Ele levava-as de um local para o outro sem método e sem organização. Pegava numa e levava-a ao local de destino. Voltava para trás e repetia a tarefa até à sua conclusão. Sempre do mesmo modo. Chegava ao fim e estava completamente exausto. E no dia seguinte fazia sempre da mesma maneira e sentia-se sempre a perder as forças.

Um dia, quando estava a iniciar a sua tarefa, passou uma mulher. Ele parou a olhá-la e ela sorriu para ele. Perguntou-lhe o que estava a fazer. Ele disse-lhe que tinha aquela árdua tarefa a cumprir e que todos os dias as pedras regressavam ao local de origem. Ela ficou pensativa e perguntou-lhe se queria ajuda. Ele recusou. Um homem tem de ser forte. Ela foi embora.

No dia seguinte o homem sentiu qualquer coisa estranha. Lembrou-se da mulher. As pedras, naquele dia parecia mais pesadas e difíceis de carregar. A imagem dela voltou-lhe à memória. Outra vez aquela sensação. Percebeu que eram saudades. Nem a conhecia! Uma das pedras escorregou-lhe da mão e tombou no pé. Doeu-lhe.

Estava sentado no chão, desanimado e a mal dizer a sua vida quando viu passar a mulher. Ela sorriu e aproximou-se. Perguntou-lhe o que tinha. Ele, de pé cheio de sangue, não teve outro remédio a não ser mostrar. Ela limpou-o, com muito cuidado e ajudou-o a levantar-se. Olhou para as pedras. Eram muitas e grandes. Pegou numa. O homem pediu-lhe que não o fizesse, porque a tarefa era dele. Ela pousou-a no chão e foi embora. Ele viu-a afastar-se.

Nesse dia as pedras pareciam mais pesadas do que nos outros dias. No fim do dia o cansaço era tanto que o homem adormeceu sem comer. Acordou e o pé doía-lhe tanto. Lembrou-se da mulher. Onde estaria? A sua imagem não saiu do seu pensamento. Olhou e as pedras estavam todas, as 50,  a olhar para ele. Respirou fundo, pegou na primeira e avançou.

A mulher voltou a passar por ele e sorriu-lhe, mais uma vez. Deixou cair a pedra. Ela ajudou-o. A pedra parecia mais leve. Carregaram os dois. A distância tornou-se mais curta. Olhou para trás e estavam todas do outro lado. Como é que podia estar a acontecer uma coisa daquelas? Então percebeu que com incentivo tudo se torna mais fácil. A mulher continuava ali e ele sem saber o que fazer. Sorriu-lhe. Ela foi embora.

Na outra manhã o monte de pedras tinha voltado ao início. Mas a mulher estava lá, à sua espera. Os dois levaram as pedras e num instante chegaram todas ao destino. Nessa noite a mulher ficou na casa do homem. Não falou, mas esteve ao seu lado. Ele, nessa noite, sonhou que as pedras desapareciam e que a sua vida seria diferente. Gostou.

O sol despontou e as pedras, as mesmas 50 pedras, continuavam no mesmo local, mas agora eram mais pequenas. Sozinho conseguia transportar mais do que uma de cada vez e com a ajuda da mulher a tarefa chegou ao fim sem que se desse conta. Não entendia o que se estava a passar. O que era aquilo? Mas estava a gostar.

Mais um dia e as pedras eram cada vez mais pequenas. Já levava várias, dos dois lados e pareciam-lhe muito leves. Quando chegou ao fim a mulher sorriu-lhe e deu-lhe a mão. Abraçaram-se e o homem chorou. A mulher bebeu as suas lágrimas e o homem sentiu-se leve, tão leve que não a queria soltar. Estava a ter a nova vida do sonho.

O novo dia chegou e as pedras continuavam a acumular-se. Agora eram tão pequenas que o homem ficou a pensar que ainda não tinha acordado. Eram pequeninas e podiam ser transportadas com a maior das facilidades. Quase não pesavam. A mulher pegou numa e comeu-a. Depois pegou noutra e fez o mesmo. O homem não sabia o que dizer. Olhou para a pilha. Pequena que quase não se via.

Mais um dia e a mulher deu-lhe a mão e voltou a comer mais pedras. As pedras quase não se viam e o homem levou-as todas num instante. Ficou com o tempo solto e livre para fazer o que tivesse vontade. Olhou para trás e não viu a mulher. Assustou-se. Onde estaria? Nessa noite sonhou com ela e que lhe dava a mão para voarem para locais maravilhosos. Acordou a chorar. Sentia-se incompleto.

As pedras estavam em monte. Muito pequeninas. Pegou numa. Era pesada. Pegou noutra. Ainda mais pesada. Pegou na terceira. Mais ainda. Desanimou. Gritou: Mulher onde estás? Preciso tanto de ti! Foi então que percebeu que não podia estar só, que precisava da sua outra metade. Sentou-se no chão e chorou.

A mulher aparecer e deu-lhe a mão. Voltou a beber as suas lágrimas e ajudou-o a levantar. Pegou numa pedra. Estava mais leve. Pegou noutra. Ainda mais leve. Pegou nas outras e levou-as sem qualquer dificuldade. A tarefa esta concluída. Nessa noite a mulher deitou-se com ele e tiveram o mesmo sonho. Viam locais imaginários cheios de luz e de cor. Sentiam o mesmo. Acordaram muito juntos e de mãos dadas.

Para espanto do homem, quando chegou à rua, não havia pedras. Esse dia era estranho. Olhou à sua volta e não as via. Que lhes teria acontecido? Onde é que as pedras estavam? A mulher deu-lhe a mão, mais uma vez e levou-o até ao rio. Sentou-se na margem e chorou. Soltou tantas lágrimas que houve uma enchente. O homem sentia os pés molhados.

Olhou melhor e viu o seu reflexo na água. Era ele e ela estava ao seu lado. No fundo do rio viu as pedras, as 50 pedras que o tinham atormentado durante tanto tempo. Deu a mão à mulher e, como estava liberto da sua tarefa, beijou-a ao de leve. Ela respondeu e abraçaram-se. Depois olharam um para o outro, viram-se e descobriram os seus corpos. Então, soltos e felizes, voaram para os tais locais que os dois tinham sonhado.

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