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Crónicas

A Odisseia do Certificado

Vivi uma situação tão caricata que pensei estar numa rábula dos conhecidos “Gato Fedorento”. Aquela em que uma pessoa necessita de renovar a licença para saltar ao pé coxinho. Foi idêntico o calvário de burocracia e de má vontade.

Precisei dum documento comprovativo das minhas habilitações, para ser entregue numa certa instituição pública. A aventura teve o condão de começar logo mal, mas pelo caminho ainda conseguiu ficar pior. São duas instituições públicas que ficam de costas viradas e a de menor estatuto duvida da que lhe está muito acima.

Como estamos em tempo de pezinhos de lã, optei por não me deslocar à Universidade e tentei o contacto telefónico. Engano meu. Tocava, mas ninguém atendia. Insisti e obtive o mesmo resultado. Passo seguinte: mail. Tarefa concluída.

No dia seguinte, tinha uma resposta. Indicavam o departamento para onde deveria ser remetido o pedido, uma vez que dizia respeito a uma licenciatura. Era dia 1 de Setembro. Esperei. Esperei. Esperei e desesperei.

Enviei novo mail e esperei. Esperei. Esperei e voltei a entrar na tal espiral de desespero. Por portas e travessas uma pessoa conhecida tinha uma amiga nessa instituição e iria entrar em contacto com a colega que tratava do assunto.

O mês já tinha passado do meio. Largamente. Um dia uma senhora telefonou-me. Não entendia o que lhe solicitava. Fui bem clara no meu pedido e expliquei qual a sua finalidade pois era necessário a indicação das disciplinas.

Do outro lado uma voz incomodava disse-me:

– Oh, minha senhora, tem aqui vários cursos e imensas disciplinas. Já viu o trabalho que me vai dar?

Pára tudo! Não é a função dela? Trabalho? Mas o que é isto? Eu é que as fiz todas e não ela. O desgaste foi meu e não dela. Minha senhora? Pelo menos o título de delicadeza, que ela se identificou logo como senhora doutora. Mas não ficou assim.

– Isto é pré-Bolonha! Tenho de ir ao arquivo.

Ora bem. Parece que os cursos antes do brinquedo que dá pelo nome de Bolonha são perigosos. Sim, eram daqueles de cinco anos e feitos a ferros muito quentes, sem trabalhos que são copiados, mas sim com exames presenciais. Pelos vistos o meu processo estava desarrumado. Que incómodo que a senhora doutora iria ter. E deixou transparecer que os mesmo estavam quase a expirar. Que ridículo!

Para a ajudar disse-lhe que já me tinham passado, em devido tempo, na altura em que concluí o curso, um documento com as disciplinas em causa. Aí foi rápida pois disse logo que não existia tal documento. Acontece que tive de o entregar numa outra Universidade para frequentar um nível de ensino superior à licenciatura. Só assim o pude fazer.

Voltei a explicar tudo, como se tivesse cinco anos (os dos cursos antigos) para que nada falhasse. Foi o mesmo que falar com a parede. Chego a pensar se me terá ouvido. Passados uns dias entrou em contacto comigo e pediu-me um valor escandaloso para que o tal documento fosse passado.

Tentei a todo o custo falar com ela, mas foi impossível. O telefone tocava, mas ninguém atendia. O mês de Outubro estava mesmo a chegar. Agora voltou a entrar a amiga da conhecida que desbloqueou a situação. Que não era assim aquele valor que havia uma falha de comunicação e blá, blá e mais blá, mas teve de ser e não devia ter sido.

Depois de pago, o que ainda foi outra tarefa complexa, demorou mais de uma semana a chegar a minha casa e não foi nada do que se falou. A menção às tais disciplinas não existe e a média foi mal calculada. Um must! No entanto o valor já estava do lado de lá. Não sei como se chega a estes extremos.

Novamente ajuda da amiga da amiga e novo contacto. Desde vez uma outra pessoa e esta sabia o que eu estava a dizer. O tal documento que a primeira senhora doutora disse que não existia apareceu logo, mas o resto, o que importa, ainda está por resolver. E não foi preciso pagar pois já estava pago o que me leva a crer que sacar dinheiro é o mote.

Neste momento entra outra instituição na equação. A que está mais acima. Curioso que quem solicita tudo é a que está mais abaixo, mas tem uma visão muito mais redutora. Já estou a falar do chefe máximo, aquele papão que a todos assusta quando lhes dá jeito.

A página que têm na internet está desactualizada. Bem tentava ligar e enviar mails, mas claro que era impossível. Outra vez a amiga da amiga e salta um mail certo e um telefone que é atendido. Chego a pensar que é de propósito. Só pode. Se não fosse assim nunca lá chegaria. Só não entendo o motivo de continuar esta página a funcionar.

Garantem-me que o assunto fica resolvido muito rápido, o que sei bem que não é verdade. A resposta foi mais do que óbvia e evidente, mas não sei se será o suficiente para calar as vozes que clamam não ser assim. A lei é clara para quem a sabe interpretar.

Resumindo e concluindo. Na Universidade, estão em regime de teletrabalho e como se entendeu não funciona. O horário é muito reduzido e os dias ainda são mais curtos. Não digo mais nada. Para bom entendedor maia palavra basta. É vergonhoso.

Ora tudo isto foi feito em serviço público, o tal que faz o cruzamento de dados, mas apenas para o que lhe interessa. Neste caso é mesmo para abater. Estou cansada, exausta, desgastada e ainda me sinto gozada. Soa-me a filme de terceira categoria, mas são os serviços públicos do nosso país. Não se consegue tratar de nada.

Se não tivesse aparecido a amiga da conhecida, para tentar minimizar os estragos, certamente que ainda continuava à espera que alguém se dignasse a responder ao primeiro mail, o que prova que as cunhas, ou factor C, ainda são o melhor remédio, ou solução.

Afinal, os nossos comediantes não são nada criativos. Recorrem aos serviços que existem neste país e depois basta colocar em evidência as curiosas e criativas discrepâncias do sistema para que todos possam rir das desgraças alheias.

Só falta acrescentar que entre os pares, ou seja, numa escola pública, os colegas são tão queridos e fofos e se sentem tão intimidados com um documento oficial que tentam, a todo o custo, ridicularizar e afastar uma colega que, muito antes de eles terem nascido, já andava nestas lides de ensinar.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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