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História

Santiago de Compostela

Em 1078, Afonso VI, rei de Leão e Castela, decidiu reconstruir a basílica consagrada ao apóstolo Tiago Maior, tendo recebido todo o apoio do bispo de Compostela. Tudo se prende a uma tradição remota, de 951, quando Gotescalc, bispo de Puy, efetua a primeira peregrinação a Santiago de Compostela, um hábito que não existia e que se tornou vulgar. Somente no final do século XI, quando a insegurança abandona o norte da Europa, com a acalmia das várias investidas mouras, este caminho religioso conhece o seu apogeu.

Segundo uma tradição, do século VIII, depois da morte de Tiago, decapitado em Jerusalém, os discípulos teriam depositado o seu corpo numa barca, de forma a manter o resto da sua integridade. Os anjos encaminharam a mesma até Espanha, reino já evangelizado por ele e que o estimava. Outra lenda fala de um eremita, no século IX que, surpreendido pela luz de uma estrela, seguia-a até chegar ao local exato da sua sepultura, que estava enterrado na Galiza, em Padron.

O bispo autenticou os despojos e mandou construir uma igreja nesse local. Rapidamente se tornou o patrono da luta contra os infiéis, os mouros, que dominavam uma grande parte do território. Num ápice foi-lhe atribuído o epíteto de Matamore, matador de mouros, É curioso verificar que um homem pacífico e de cariz peregrino, se transforme em guerreiro. Uma coabitação precisa e necessária. A fé tem contornos que o comum dos mortais nem sempre consegue alcançar.

Os trabalhos são entregues a dois mestres de obra que se supõe serem de origem francesa e com experiência neste tipo de edifícios. Tem 90 metros de comprimento e é adotada a cruz latina como planta, o que inclui três naves e um vasto transepto com 67 metros de comprimento. Na parte traseira situa-se o altar-mor e abriga o túmulo do santo que pode e deve ser visitado. Em redor, várias capelas convidam à oração e o silêncio que se sente é de emoção. Com o passar do tempo, a decoração original foi sendo alterada.

Em meados do século XIII, Mestre Mateo, procede uma remodelação no portal principal e esculpe representações com grande significado teológico. Aí se encontra representado o santo, Tiago com vestes de peregrino, sentado e acolhendo os que o pretendem visitar. Todos estes belos trabalhos acabaram por ser em vão pois no século XVIII o estilo barroco deu entrada nesta igreja e nasce assim o Pórtico da Glória, uma obra emblemática e que atrai ainda mais peregrinos, sejam eles religiosos ou não.

Este Pórtico, inicialmente pensado pelo Mestre Mateo, tinha como missão nivelar as naves do templo com o terreno circundante e por isso foi construída uma nova cripta. As figuras esculpidas tinham uma missão pedagógica e calmante pois a forma como eram detalhadas, levava os crentes a evitar o contacto direto. Foram, posteriormente, retiradas e podem ser vistas no museu da catedral. O policromado esbateu-se e restam poucos vestígios das suas cores.

Os peregrinos que pretendem entrar em Santiago têm um longo caminho a percorrer. Trajados com uma túnica curta, com uma romeira e um chapéu de abas largas enfeitado com uma cocha de vieira, o símbolo de Tiago, tinham ainda uma saca de mendigo e um bordão. Era os auxiliares para a caminhada e a saca seria para recolha dos alimentos que conseguissem. Antes da partida eram abençoados pelo bispo e seguiam em grupo. Nos tempos idos as estradas, poeirentas e estreitas, pouco tinham de segurança e por isso os grupos ofereciam uma forma de apoio e de sobrevivência.

As pernoitas eram feitas nos mosteiros ou nos hospícios, os que incluíam esse serviço pois os albergues eram zonas onde a marginalidade acontecia com facilidade e assim sendo os roubos eram frequentes. A comida era mendigada, mas como os cristãos sabiam que deviam ajudar os seus, por pouco que tivessem, não faltava para acalmar o estômago que pedia atenção. O caminho era longo, mas o mote era ainda maior. Quando chegavam ao Monte da Alegria, sobranceiro a Compostela, as dúvidas que podiam existir, dissipavam-se e sentiam que a recompensa pelo esforço era grande.

Antes de entrar na Catedral o peregrino tinha um ritual a cumprir. Era a purificação através da lavagem e onde as dores que pudessem sentir ficavam esquecidas. Passavam a noite na catedral e entoavam cânticos como forma de agradecimento. No dia seguinte era o tempo das oferendas e da missa. Só depois é que se dirigiam ao altar-mor e rezavam junto do túmulo do santo. Havia lugar ao beijo e às procissões, ao confessar e à comunhão. O ponto alto estava atingido. A partir do século XIV surge a compostela, um certificado que comprova a peregrinação e que deve ser marcado em todos os pontos.

As motivações de cada um eram diferentes e criavam expetativas fortes e singulares. A viagem é feita de livre vontade para pagar uma promessa, para procurar a cura ou apenas por agradecimento. No caso oposto, onde a dita era uma obrigação, seria uma penitência para a remissão dos pecados. Também havia quem fizesse a peregrinação em nome de outros para que Tiago tivesse a graça de auxiliar os que não a podiam fazer. A finalidade era sempre a mesma, o que variava era a forma de a obter.

Para um cristão estar junto da tumba de um santo era a porta aberta para a solução da questão que lhe colocava. Era a cura da doença, o desenlace do problema ou ainda os mais variados milagres que o patrono conseguia fazer. Aos doentes era dada a saúde, aos cegos a vista, aos mudos desata-se a língua, os surdos passam a ouvir, os coxos andam naturalmente, os possessos são libertados do mal, o pecado é perdoado e ao céu abre as suas portas para receber os crentes.

O Caminho de Santiago tem sete rotas históricas: o francês, o do Norte, a Via de la Plata, a Rota Marítima, o inglês, o Primitivo e o Português. Qualquer um deles tem como missão chegar a Santiago de Compostela e orar ao santo. Ou apenas conversar com ele e admirar as maravilhas da catedral. Dos tempos antigos até à modernidade tanto aconteceu e por isso os motes sofreram alterações. A época medieval deixou marcas profundas, mas os que chegam agora sabem como se adaptar.

Percorrer os caminhos que os antepassados calcorrearam, com dor e lamento é um valor acrescido e poderoso. As estradas são as mesmas, mas os tempos são outros. Agora é tudo mais fácil, mas o mote pode ser igual. O peregrino quer sempre algo de volta, o seu eu que foi sendo moldado ao longo da viagem. Hoje pode ser feito através de outros meios e até o carro, a bicicleta ou mesmo o cavalo, são auxiliares para o mesmo fim. Se antes o peregrino ia só, encontrando outros que palmilhavam as mesmas rotas, agora é muito possível cruzar-se com famílias que iniciam os seus elementos mais novos nesta tão salutar prática. Há a cultura e há a religião.

Quando o peregrino chega à Cruz de Ferro, sente que os outros todos, os milhares que lá estiveram, o abraça, pois é um local emblemático. A partir de agora o caminho é sempre a descer e o destino está mais próximo. É neste local muito aprazível que se deposita o que se leva de propósito: um santo, um lenço, um pedaço de cabelo, um escrito, uma pedra, o que se quiser. Eu deixei a pedra que foi escolhida, de propósito, para esse fim. Estará em confraternização com todos os votos de cada um.

Não perca uma visita por Santiago de Compostela com detalhes acrescidos. Agora é zona de gentes bem jovens, que estudam na Universidade e, por isso, os bares estão sempre cheios de alegria e boa disposição. A noite também faz parte do final da peregrinação e pode ser celebrada em grande. Visite o Casco Histórico e oiça as vozes dos que por ali andaram e deixaram os seus lamentos e desejos. Passeie nos vários parques que estão equipados para receber os visitantes. Oiça os pássaros e sente-se no chão. Sinta tudo. Viva o momento.

Assista à Missa do Peregrino e delicie-se com o Botafumeiro, o incensário que seis homens empurram, de um lado para o outro da nave, perfumando o ambiente e soltando as mil e umas bênçãos que todos desejam. O som que se ouve é inesquecível e dá vontade de voltar, de sentir, com outros a mesma sensação de pertença e de união. Qualquer lugar é perfeito para se sentar e ficar. Fique. Ajoelhe-se perante o santo e coloque os dedos nos locais certos. Dizem que ajuda os estudantes e os necessitados, mas a verdade é que tudo justifica o seu caminho.

Visite o Museo do Pobo Galego. Instalado num edifício emblemático, o antigo convento de San Domingos de Bonaval, reconhecido como “centro sintetizador dos museus e coleções antropológicas da Galiza”. É um concentrado das tradições e da memória coletiva dos galegos, ao longo dos anos. Uma viagem comum a muitos povos e uma forma de se sentir ainda mais integrado na cultura popular. Além da coleção permanente ainda pode usufruir das exposições temporárias.

Este ano é o Xacobeo, ou Jacobeo. É o nome que se dá ao ano santo, quando o dia 25 de Julho, data de nascimento do santo, S Tiago, calha a um domingo. Isto significa que existem mais festas e mais comemorações especiais numa terra já de si sempre em festa. Como no ano passado, a pandemia não permitiu celebrações assim sendo, o ano santo prolonga-se até 2022 e terá muito para oferecer. Aproveite para conhecer os recantos desta cidade e entre em tudo o que seja possível. Há cafés com decorações únicas e ruas que sabem abraçar.

O peregrino tem os seus símbolos, que o identificam em cada sítio por onde passa. Um deles é a vieira, uma concha que tem o tamanho certo para recolher a água e servir de bitola para os alimentos. Um pouco de arroz ou qualquer outro abafo do corpo, se couber naquele espaço, é suficiente para o corpo. Os sulcos são uma metáfora pois convergem para o mesmo ponto, que é a catedral com o santo, a rota que todos une. O bordão ajuda na caminhada e se tiver um gancho serve de auxiliar de transporte, um outro braço que ajuda a carregar. A compostela é o passaporte, ou seja, onde é registado o percurso que cada um fez pois recebe um carimbo por cada local percorrido. O mais importante de todos é o que é colocado em Santiago de Compostela.

É natural que em cada recanto seja presenteado com grupos de músicos ou de novos saltimbancos que alegram todos com a sua arte. A cidade fervilha e não dorme. Há vida em todos os locais e as comidas são outro atrativo. Fique ciente que está na Galiza e come-se bem em todos os cafés, bares, restaurantes e similares. Aventure-se e deixe-se levar por tantos anos de história e de lendas. Compre recuerdos, vagueie pelas ruelas e sente-se nos degraus que, outrora, foram companheiros de quem sabia que a chegada a Santiago iria mudar a sua vida para sempre. Esses, mesmo não sendo vistos, continuam vivos.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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